Hoje faz um mês que estou em Santiago, e nunca postei sobre o que rola aqui. Eu poderia sair falando de todas as diferenças culturais em relação ao Brasil (que existem, são numerosas, mas não tão impactantes) neste post, mas não quero esgotar o tema.
Quando o avião acabou de pousar no aeroporto eu já tive um vislumbre de que as coisas aqui não eram tão diferentes. Ao longe, em algum ponto do aeroporto, estava o logo da Petrobras. Saindo do avião, a caminho da imigração, uma propaganda da Claro. Saindo do aeroporto, indo para onde eu ficaria por um dia, vi a noite em uma cidade bonita, com calçadas largas, algumas delas com espaço para ciclistas, mais arborizada - como um bairro nobre de São Paulo.
Até aquele momento eu falava portunhol. Tudo o que estudei por conta própria não era páreo para o espanhol chileno, que é rápido, com diversas expressões locais e ainda falado sem algumas letras. Na imigração, quando achei que teria que soltar o verbo, só falei um "gracias", porque o cara só me falou "hola" e "listo". No carro, fui falando mais, mas a cada três palavras pedindo pros caras que foram me buscar repetir o que diziam.
A noite era fria, e dentro da casa para a qual fui havia um aquecedor. A casa parecia estar num bairro de periferia, pois as ruas eram escuras, pequenas, e as casas humildes. Porém, no dia seguinte descobri que ficava ao lado de uma estação de metrô, e que há muitas estações de metrô em Santiago e que aquele bairro na verdade era um dos próximos do centro.
A casa na qual estava por aquele dia era uma na qual moravam 11 estrangeiros. No dia seguinte eu estava vendo televisão na sala com 2 americanos, 1 chileno e uma chinesa, e os outros colombianos, finlandeses e alemães já estavam no trabalho.
Eu conheci São Paulo andando, e queria fazer o mesmo aqui em Santiago. Porém, estava muito frio e chovendo, e eu não tinha um guarda-chuva (aqui, "paraguas"). Pus uma blusa impermeável e fui conhecer o metrô. Para isso comprei um Bip!, o Bilhete Único daqui.
E aquela foi a diversão do dia. À noite fui para a AIESEC, acompanhei um processo seletivo de novos membros, me usaram como exemplo do que é o trabalho da AIESEC e eu só respondia com acenos. Depois, me levaram para a casa na qual estou desde então, e fui recebido pela mãe da casa. Me mandou tomar banho e ficou conversando comigo enquanto eu comia a pratada de macarrão que ela me fez. Falava em espanhol devagar, porque já tem experiência em receber estrangeiros.
Fui dormir embaixo de 5 cobertores, e com tanto frio hibernei por quase 12 horas. Quando acordei, a mãe da casa me disse para ter cuidado ao andar por Santiago, porque havia um protesto estudantil. Saí correndo para ir ver o protesto, e tive meu primeiro contato com... gás lacrimogêneo. Comi um completo (um cachorro-quente com repolho, tomate picado e molho) e fui conhecer outros lugares.
Voltei para casa à noite e havia dois holandeses jantando com os pais da casa. A mãe me trouxe uma pratada de... carne. Como eu não havia dito que não gostava, me senti na obrigação de comer.
O dia seguinte foi o primeiro dia de trabalho. Teoricamente. Minha chefa disse que estava muito atarefada e não teria tempo de me receber. Me mandou ir tirar o visto. No fim das contas, fui ver Transformers com um casal (aqui ficar de vela é "tocar el violín"), legendado em espanhol. À noite, pisco (a cachaça daqui) em casa. Com dois copos já fiquei de fogo.
Três dias que resumiram boa parte do que eu veria no meu primeiro mês: mais carne, mais pisco, mais completo, mais gás lacrimogêneo...
29 julho 2011
06 março 2011
The end.
O fim do ano passado foi composto por vários fins. Foi uma festa da qual eu não poderia voltar para casa e comentar no dia seguinte tudo o que rolou, pois quase todas as pessoas passaram pela porta da saída para não serem mais vistas.
A faculdade acabou. Passaram-se 4 anos desde que eu entrei na USP, o que coincidentemente foi o primeiro assunto do blog, a vida acadêmica (como se eu soubesse o que era vida acadêmica naqueles tempos). Eu não me formei e vou continuar indo para a faculdade, mas eu não terei a minha sala. A balada da sexta-feira não será mais comentada na primeiríssima aula da segunda-feira, ou antes, no bandejão, porque sequer as mesmas pessoas terão ido para a balada. E isso já começou a acontecer. A discussão (nome mais bonito para fofoca) da festa de formatura ficou na Internet, no dia seguinte, em frases esparsas de até 140 caracteres. Infelizmente.
Em 2010 eu comecei a trabalhar de verdade e conheci mais pessoas e fiz mais amigos. Este ciclo, entretanto, foi mais breve. No fim do ano muitos já foram embora. Um dia, o último dia de uma pessoa que trabalhava comigo, rendeu uma imagem disso. Ela se despediu de mim, foi embora atravessar a avenida dela e eu a minha. Dei de cara com um farol vermelho, então me virei e fiquei olhando. Ela estava indo embora por aquela avenida que se estendia até além do horizonte. Fiquei olhando até ela sumir (ou até o farol ficar vermelho mais duas vezes), e vi exatamente mais uma pessoa indo embora do meu convívio.
Na segunda metade de 2010 morei fora de casa. O fim do ano foi o momento de voltar para casa por questões financeiras e práticas. Foi mais uma época na qual fiz mais amigos e vivi a melhor parte da vida, e foi mais um momento do qual me despedi da maneira mais imagética.
Fui levar um dos caras da república para o aeroporto. Ele iria para casa por um mês e voltaria para a república depois da minha saída. O fim do convívio com um grande amigo era ali. E no mesmo dia e hora eu buscaria outro cara, da AIESEC, no aeroporto.
Entramos no aeroporto, conversamos um pouco, nos despedimos e ele embarcou. Desta vez não tinha uma avenida infinita, mas ele indo embora pelo saguão lotado. (Com a mala gigante de viagem que me servira de criado-mudo nos últimos seis meses.)
Primeiro foram dezenas de pessoas da faculdade embora. Depois, alguns do trabalho. Agora mais um. Fiquei no portão de desembarque pensando em tudo isso. O que seria de mim em 2011? O que vinha depois desse fim de ano tão final?
A resposta desembarcou. Pessoas vem e vão, afinal, Arthur, como você pode ver neste aeroporto. Aí está uma outra pessoa que acabou de cruzar o seu caminho.
PS.: pena eu não ter escrito este post no fim do ano passado. Tentei entrar no mesmo clima para escrevê-lo artificialmente, aqui.
07 setembro 2010
Mau resolvimento.
Fiquei com uma parte da vida mal resolvida: a do intercâmbio.
Eu aproveitei muito menos do que deveria ter aproveitado. Fui a menos festas do que deveria, fiz menos amigos do que deveria, trabalhei mais, tirei menos fotos, fiz menos besteira. Pra variar, eu fiz as coisas mais cedo do que deveria ter feito. A Disney e os meus vinte anos de idade (este post serve até como balanço geral dos meus vinte anos) me fizeram levar a vida menos a sério, a pensar menos e a me divertir mais. Já ouvi várias vezes de várias pessoas que eu penso muito, hipotetizo muito antes de fazer alguma coisa. Já melhorei bastante neste aspecto nos últimos tempos, mas ainda tenho muito a melhorar.
Pior que eu conheço uma pessoa que também pensa demais, e ela é o modelo perfeito a não ser seguido, na minha opinião. É um cara muito inteligente, mas que parece ter medo de dar a cara a tapa. Com a minha idade não tem história pra contar. Foi à primeira festa da faculdade da sua vida no último ano do curso. Quando eu o encontrei no meio da festa, gritei "e aí, tá curtindo?" (prolongando bastante mais as vogais) e ele, ao invés de gritar qualquer coisa, teorizou com voz de quem está num café: "sim, essa sensação que dá a música alta, as pessoas dançando, dá uma sensação muito boa que anima muito", e etc. Enfim, ele realizou muito pouco na vida. Ficou lá, pensando, até quando fez.
Quando encontro alguém que também trabalhou na Disney dói, literalmente, de compartilhar as experiências. Vai além da DPD (depressão pós-Disney), como ex-cast members chamam. Agora que estou procurando intercâmbio para trabalhar na minha área fico pensando se aproveitá-lo bem substituiria essa sensação de incompletude. Mas não, não é a mesma coisa. A Disney tem lá seu marketing fantástico que, por si só, já amolece uns corações só de ver fotos de lá (no meu caso, só de ouvir músicas), e isso também chega em quem trabalha lá.
Quando eu achava que estava chegando ao ponto de esquecer e tocar a vida porque não há mais o que fazer, recebi um email falando de um programa de seis meses na Disney. Simples: é entrar nesse programa, fazer o que deveria ter feito e voltar não devendo mais nada para mim. Porém, é difícil parar a vida por meio ano com a justificativa de resolver isso.
Eu achava que tinha muito, e que jogar tudo para o alto seria loucura. Um dia minha chefa me disse que queria dar a volta ao mundo por um ano. Eu disse que queria fazer o mesmo, mas que era difícil largar tudo. Quando ela me perguntou o que eu tinha e eu disse "a faculdade, o estágio", ela riu.
Eu não tenho nada. Nós não temos nada, galera. Eu posso, sim, largar nada e ir embora, porque esse é o momento de fazer isso. Depois a vida começa.
Fui atrás do programa da Disney disposto a largar o início da procura do intercâmbio de trabalho na minha área, a faculdade, o estágio, tudo. A música de uma das paradas da Disney turbinou minha vontade. Eis que aparece um dos termos do programa: já estar formado.
Respirei aliviado (como sempre faço em todo fim de post). Não preciso pensar em superar isso agora. Melhor: tenho mais tempo para pensar se voltar é o melhor meio para seguir em frente sem arrependimentos. O que vocês acham?
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