2 de novembro de 2009

Independência ou morte.

Fui falindo ao longo do ano e agora é oficial: fali. A primeira coisa que alguém que faliu de verdade vai fazer não vai ser postar no blog, certo. É que a minha falência é diferente. Minha família nunca vai falir (funcionário público na parada) e levamos uma vida boa, mas a minha fonte de renda acabou e, por orgulho, eu não peço dinheiro pros meus pais. Não conheço outra alma que faça o mesmo, mas isso não me faz crer que eu estou errado. Meu argumento: tenho 20 anos e acho que é idade mais que suficiente pra parar de depender do papai e da mamãe pra ir pra balada. 20 anos é idade mais que suficiente pra já estar no batente, e eu estar procurando batente pra bater não é argumento que me poupe da culpa de pegar dinheiro com os pais. Eles até querem me dar dinheiro quando me veem escolhendo comer em casa e não na faculdade pra economizar um real e noventa centavos, mas eu recuso.
Percebi quatro aspectos positivos desse estilo de vida compulsório:
- vivendo numa quase inércia eu quase não consumo e, portanto, quase não produzo lixo;
- passei a me entreter e me satisfazer com as pequenas coisas da vida que não envolvem uma compra;
- passei a entender melhor arte, pois tudo que é gratuito nessa cidade é alternativo (e quase tudo que é muito barato é ruim, como os filmes que passam na sessão das 15h do Cinemark, então vale mais a pena ainda o que é gratuito) e alternativo é arte, e fica chato não concluir algo daquilo;
- parei de fazer negócios ruins, pois sempre busco o melhor custo-benefício nem que isso leve meses.
Logo, estou vivendo uma alternativa ao capitalismo e encontrei a solução para a poluição do meio ambiente, e eis um exemplo do como fazê-lo: vá num sábado à tarde para a Vergueiro ler revista de graça, depois vá para a sessão gratuita de um filme russo lá mesmo, dê uma volta pela Paulista e arredores (e use o banheiro do Pátio Paulista, se precisar, tomando cuidado com o público que o frequenta - pelo que está escrito nas paredes, parece que o pessoal vai lá pra acabar com outras necessidades que não o número 1 ou 2) e termine o roteiro passando na Cultura para ver, e não mais que ver, os livros que estão naquelas estantes centrais. Volte pra casa exausto de tanto andar e vá dormir sem nem lembrar do que está perdendo no sábado à noite.
Foi aí que comecei a perceber que meu orgulho mais prejudica que conforta. Apesar de salvar o mundo, num determinado momento é preciso se colocar à frente dos outros e, ao pensar assim, vi como estou perdendo oportunidades. Amigos meus estão fazendo cursos e enchendo o currículo, enquanto eu faço o mesmo pela Internet informalmente e com um material menos organizado. Perco chances de conhecer pessoas novas por não estar num ambiente no qual isso é mais propício. Deixo de me divertir mais, como ao não fazer coisas que, apesar de caras, valem cada centavo. Essa economia chega a me prejudicar num sentido bem prático, como quando me recuso a xerocar alguma leitura da faculdade e vou atrás do livro do qual a xerox veio (o que leva muito tempo), quando me recuso a pagar o preço absurdo que cobram por um livro que é legal, e até ao alimentar um estilo de vida meio contrário ao que eu aprendo a alimentar na faculdade (o que, em longo prazo, pode me deixar desempregado). E quando eu achava que essas eram as únicas possibilidades de me prejudicar, vi que estava extrapolando essa economia pra tudo, desde não usando faca pra comer pra economizar talher até tirando foto com menos megapixels pra ocupar menos espaço no HD.
Não acho que economizar seja ruim. Não usar faca economiza sabão e enche menos rio de espuma. Preferir pegar livro emprestado a tirar xerox ou comprar um economiza árvore. Sabendo que eu nunca vou imprimir minhas fotos em tamanho pôster, não preciso de resolução máxima. Mesmo assim, pelo que eu perco por não aceitar os recursos de outras pessoas, concluo que o que era simples vontade de ser independente se transformou em um estilo bizarro.

19 de outubro de 2009

Parabéns pelo seu dia.

Tirei essa foto na estrada no dia do meu aniversário (também o dia do médico, mas fingi que não li o "18 de outubro - dia do médico" no letreiro). Depois de achar graça da Autoban me dando feliz aniversário, vi o quanto esse momento pode ser motivacional (antes de continuar, saiba que este post tem a tag 'filosofia de bairro'). No final do dia, perto de anoitecer (como na foto), quando se está geralmente cansado por causa do trabalho e os problemas povoam nossa mente, aparece um letreiro nos parabenizando pelo nosso dia. A luz dele está meio apagada (o cansaço), mas ainda existe. Demos o nosso melhor e estamos vivos, afinal.

E a vida/estrada continua.

(Já é meu papel de parede, mesmo a foto estando mal enquadrada por ter sido tirada de repente. Eu vou me envergonhar em breve deste post)

5 de setembro de 2009

Um sujeito bem estranho, segurando um monte de sacolas, sentou-se ao meu lado. Estava com ar de quem tem mil coisas pra fazer. Tirou de uma das sacolas um pote com nozes e começou a comê-las, com ar impaciente, mas delicado. De vez em quando dava uns suspiros. Dali a pouco ajeitou tudo, levantou e, no banco que ocupava, ficou um papel de cor amarelo-post-it. Bati o olho nele e vi escrito "Poesia solta - Amigo inusitado". Saquei que ele tinha deixado o papel ali de propósito, afinal a poesia era solta, e o amigo, inusitado.
Aquilo para mim era o máximo: eu já tinha ouvido falar em bookcrossing, mas não achava que aquilo existia de fato, muito menos que o "crossing" já não se limitava a "book".
Fiquei esperando que ele fosse embora para começar a ler. Eis que um cara no banco da frente olhou para trás. Viu o papel amarelo-post-it contrastando com o banco cinzento. Virou-se para frente lentamente, como se estivesse pensando. Olhou para o papel de novo e acabou com tudo:
- Ei, você. Esqueceu esse papel?
O sujeito hesitou, acabou dizendo que sim. Guardou a poesia solta numa das sacolas, resmungou alguma coisa e foi embora. Guardei a curiosidade com o amigo inusitado, resmunguei pra quê tanta educação e fui embora.