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09 maio 2010

Brainstorm na vó

A primeira coisa que vi na cozinha foi a Coca-Cola Light Plus de 1,5 litro em cima da mesa. Dei oi pra todo mundo e sentei. Fiquei praticamente encarando a garrafa. O queixo apoiado nas mãos, os cotovelos apoiados na mesa, o corpo inclinado para frente.
A primeira coisa que percebi foi que a garrafa era pequena. Era de 1,5 litro, e não de 2 litros. Fiquei pensando se com isso a Coca queria cobrar mais caro pelas vitaminas e minerais embarcadas na Coca Cola Light "Plus", mas evitando cobrar um preço que fosse considerado alto demais. Esse alto demais pode ser diagnosticado por uma pesquisa de elasticidade da demanda, através da qual você pergunta mesmo para a pessoa se ela pagaria pelo produto com o preço x, com x+1, x+2, isso explicando de modo bem simples o teste. A de 2 litros com o premium que seria necessário cobrar pelo valor a mais desse tipo de Coca-Cola teria um preço alto demais, enquanto a de 1,5 litro com o tal premium poderia ter um preço aceitável. Talvez.
Fora isso, a embalagem, além de ser pequena, era mais fina. Isso deveria sugerir uma forma mais magra da pessoa que tomasse aquela Coca-Cola. Talvez.
Depois lembrei de quando ela foi lançada, que uma graduanda em nutrição falou que aquilo era um absurdo. Não lembro o porquê de ser um absurdo, mas acho que tinha a ver com o fato de propagandearem que ela tinha vitaminas e minerais sendo que você não se beneficiaria deles realmente consumindo aquela Coca-Cola. Algo assim.
Isso me fez lembrar do presidente da Nestlé falando que a estratégia deles seria lançar cada vez mais alimentos funcionais, que são esses com vitaminas, minerais, reguladores intestinais, etc., pois as pessoas querem ter uma alimentação mais saudável, além de, claro, os produtos tradicionais terem se tornado commodities em termos de preços (fora vilões da saúde) e os funcionais serem a nova fonte de lucros da indústria de alimentos. Por sua vez, essa lembrança me trouxe a de uma entrevista que ouvi na CBN com um médico sobre a Danone vender o Activia e algum outro produto x como remédios, o que é ilegal segundo a Anvisa. Não sei se foi nessa entrevista também que ouvi que porcarias para crianças que agora tem minerais, vitaminas, etc. são um absurdo, porque os pais das pobres coitadas vão dar aquilo para seus rebentos com paz de espírito sendo que a porcaria continua a fazer bastante mal.
Depois vi que a embalagem da Coca é azul. Eu acho estranho algum refrigerante ter embalagem azul, pois não é uma cor atrativa para bebidas.
Nisso meu primo perguntou para a minha mãe se ela já tinha provado aquela Coca. Como o assunto era a Coca, essa fala no meio de todas naquela cozinha me chamou a atenção. Ele disse que era muito boa, nem tinha gosto de adoçante, melhor que a Zero. Aí eu lembrei de mim mesmo, que não vejo a mais remota diferença no sabor da light, da zero, da normal. Aliás, a normal parece que tem o equivalente a 10 colheres de açúcar, e desde que me falaram isso eu nunca mais esqueci.
Daí lembrei de uma marca de cerveja que é vendida nos Estados Unidos, a Budweiser, que tinha a Bud Light. A latinha dela é completamente azul. Concluí que seria melhor estudar mais sobre cores de embalagens de bebida antes de achar que The Coke Company e Anheuser-Busch estão erradas e eu estou certo.
Minha mãe respondeu que nunca tinha provado aquela e que não tinha interesse em provar porque já adorava a Zero.
Lembrei do lançamento da Zero. Uma pesquisa constatou que os jovens achavam que refrigerante light era para velho, e a Zero foi lançada para eles. Acabou que a minha mãe, que consumia a Light sem problemas, passou a tomar apenas a Zero. Isso até hoje me intriga: será que ela toma a Zero para se sentir mais jovem? Ela nunca nem tocou no assunto do gosto ser melhor... O fato é que muito consumidor de light deve ter pensado o mesmo, porque elas sumiram das gôndolas. Será que a Coca previu essa canibalização?
Eu queria provar a Coca azul. Me deu na telha que ela devia ter gosto de baunilha. Porém, quando cheguei na casa da minha avó, tinham feito frango e o almoço estava no final. Todo mundo estava comendo o frango com a mão, arrancando gordura, pele, carne dos ossos dele na unha, entre familiares não precisa de etiqueta, então com certeza alguém teria aberto a tampa da Coca com a mão engordurada. Pelo menos meu primo de 13 anos teria feito isso. Eu não queria pegar na gordura do frango pra não ficar com a mão melecada e fedida, e para lavar a mão eu precisaria ir até o banheiro, do lado do quarto dos meus avós (no qual dormia meu avô naquele momento). Fora isso, no banheiro da casa deles sempre tem muito pouco sabonete, e aí eu só rasparia a ponta do dedo naquele restinho seco, já enxaguaria a mão mas continuaria com ela engordurada e fedida. Eu ficaria cheirando minha mão o tempo todo, pois eu tenho mania de cheirar as coisas.
Passei a buscar um meio de abrir a tampa sem tocar nela. Eu poderia usar a toalha vermelha xadrez da mesa, mas não tinha toalha suficiente para alcançar a altura da embalagem magra, pequena e azul da Coca. Eu poderia usar um papel toalha, mas o único à vista estava usado. Fiquei olhando, sem pensar em mais nada. Só olhando para a toalha pequena, a tampa possivelmente melecada, a Coca de baunilha dentro da garrafa. Fui acordado:
- Você fala muito, Arthur. Esse puxou o pai, não fala.
Sorri. Realmente, meu pai também pensa muito.

(2 meses, e quando vem é um negócio tão chato que eu nem consegui ler de novo para revisar...)

08 março 2010

Thriller.

Estava indo para casa num domingo à tarde quando sentou ao meu lado um senhor enorme de gordo. Além de tudo, mal educado. Quando eu olhei para o lado só vi uma bunda gigante se aproximando, e logo depois aquele peso todo em cima da minha coxa. Me ajeitei no 0,5 espaço que sobrou no banco para mim, sem que ele fizesse qualquer esforço para tornar a vida de quem não tem nada a ver com a obesidade dele mais fácil.
Ele começou a folhear um caderno. Dentro havia folhas sulfite com coisas meio estranhas. Eu não conseguia sequer identificar a língua na qual estavam escritas aquelas coisas. Ele lia como se analisasse o que estava escrito. E folheava lentamente. Em algumas folhas, caracteres japoneses. Em outra, "loira" e outra palavra que não identifiquei. Nas outras, as palavras inidentificáveis. Tudo isso eu olhava de rabo de olho, claro.
Dali a pouco ele tirou da mala um fone de ouvido enorme e velho como ele. O fone estava ligado num walkman também enorme e velho, daqueles com toca-fitas. Tudo ali era grande e velho. De repente, ele abre o walkman, e eis que o que ele tem na mão, ligado num fone, é uma câmera daquelas conhecidas como camcorder. Ele deu play no vídeo, e nesse momento eu estava quase rompendo meus nervos óticos de tanta força que fazia para fingir que estava olhando pela janela mas olhando para o lado oposto.
A tela inicialmente estava azul. Fiquei pensando no que tinha naquele vídeo. Cenas de tortura? Pedofilia? Vindo daquele senhor certamente era algo peculiar. O vídeo nunca começava. Ele olhava para a tela, e olhava para o caderno. Pegava a câmera na mão, voltava no colo. Uma hora desencanou, e voltou a folhear o caderno. E eu de olho naquela tela azul.
Do nada, e muito rapidamente, ele olhou para a janela. Eu fiz o mesmo por puro reflexo. Cinco segundos depois ele tirou o fone, e
- Oi. Você pode me dar uma informação?
Acenei positivamente.
- Você está sentindo o cheiro do meu perfume?
Eu poderia fazer um blog inteiro para descrever aquele momento. Psicopata, esquizofrênico, professor da FFLCH. Levei um segundo para responder. Um segundo no qual eu não soube o que fazer. Eu estava preso entre uma chapa de metal e vidro e duzentos quilos de pura ameaça e intimidação. Eu estava sentindo o cheiro de cada mL do perfume dele, parecia que ficaria grudado nas minhas narinas e na minha roupa, apertada contra a roupa dele pulverizada com aquele perfume.
- Não.
- Mas você não sentiu nem quando eu entrei no ônibus?
- Não.
- Obrigado.
Passei a olhar pela janela para não ver o inimigo, que nem criança brincando de esconde-esconde que põe a mão na cara achando que está escondida do perseguidor. Meus olhos estavam arregalados e eles não desarregalavam. Eu estava em estado de alerta.
Ele voltou a olhar para o caderno. O maldito caderno do qual eu até tinha me esquecido. A tela da câmera ainda estava azul. Ele começou a balbuciar alguma coisa, e quando eu virei os olhos para ele de novo entendi: ele estava ouvindo na câmera aula de alguma língua e repetindo o que deviam ser anotações dele.
Pedi licença para descer. Ele virou pouco para me dar passagem, talvez o máximo que pudesse. O fato é que tive de passar por cima dele para conseguir sair. Ele estava levando também um banquinho verde com ele, do qual também tive de me desviar.
Quando desci, não me atrevi a olhar para aquela janela com medo de ver posto em mim um olhar psicopático de um velho com fone de ouvido. Vi a janela indo embora. Respirei o ar fresco. Talvez ele estivesse esperando que eu descesse para ver o vídeo de tortura que ele estava apenas ouvindo... Ou não, era apenas uma aula de línguas. Mas aquele perfume...


(2 meses sem postar. E quando vem, é outra história de busão, a segunda deste blog. O prognóstico não é bom.)

25 junho 2009

Sou viciado em notícias. Canais de notícias, pequenos noticiários, portais de notícias. Eis que, vendo um jornal local, o apresentador fala, no final, que no jornal seguinte, de âmbito nacional, seriam dadas mais informações sobre o estado de saúde do Michael Jackson. Não estava sabendo disso, e liguei direto na Band News, um dos meus canais preferidos por ser de notícias e por ter várias faixas de informação passando ao mesmo tempo, com as mais importantes circulando numa berrante faixa vermelha. Uma imagem de helicóptero mostrava o hospital no qual ele está internado, e dizia-se a cada minuto, com o cuidado de trocar as palavras a cada intervalo desses para não cansar o telespectador, que uns diziam que ele estava em coma, outros que ele estava morto. Fiquei hipnotizado por alguns minutos até começar a pensar sobre o porquê de estar vendo aquilo. Não tem utilidade saber que o Michael Jackson está morrendo. Eu nem gosto dele. Pus na Globo News, meu segundo canal preferido de notícias porque, apesar de não ter uma faixa com as notícias mais sensacionais em vermelho, eu sei a hora em que o jornal começa (a cada hora redonda). Dou de cara com a mesma imagem de helicóptero do hospital no qual ele estava. Fiquei meio apreensivo. Pus nesse canal para testar a popularidade da notícia, mas não esperava encontrar até a mesma imagem. Pus na CNN, que só não é meu canal preferido de notícias porque os âncoras não facilitam no inglês para estrangeiros. Surpresa: a mesma imagem de helicóptero do hospital no qual Michael Jackson está, com um âncora falando as mesmas informações dos canais anteriores, mas intercaladas com algumas expressões de surpresa, além de uma grande faixa amarela escrito "Breaking News", uma faixa preta falando que ele provavelmente está morto (mas que nada está confirmado pela CNN), e uma outra faixa dando detalhes como o remédio dado a ele pelos médicos. Dada a amplitude da notícia, pus na Fox News, canal norte-americano que não se propõe a ser internacional, mas sim a ser sensacionalista. A imagem estava dividida entre o âncora falando as mesmas informações dos canais anteriores e imagens de arquivo do Michael Jackson. Não acreditei na amplitude de uma notícia que eu não acredito ser tão, tão importante. Como último recurso, já tentando fugir dessa notícia sentindo uma espécie de medo, pus na BBC World News, canal local reservado a notícias européias. A mesma imagem de helicóptero de quase todos os canais anteriores revelou-se na tela, com uma faixa vermelha noticiando a morte de Michael Jackson. Lembrei da Record News e fui direto para ela, com o medo aumentando. A imagem de helicóptero.
Minha irmã chegou em casa falando ao abrir a porta "O Michael Jackson morreu! Não acredito! Põe no Multishow que tão passando todos os clipes dele!" Pus, e dei de cara com o final de Thriller, no qual o Michael Jackson está com olhos verdes brilhantes, como os de um monstro, com a tela se aproximando de sua cara enquanto uma risada diabólica envolve a cena.
Minha nascente posição crítica sobre a notícia transformou-se em medo. A última vez que vi algo do tipo acontecer foi nos atentados de 11 de setembro, que exerceram o impacto que exerceram. Tenho medo do que possa acontecer depois da morte de Michael Jackson.

(Devolvi na CNN. Uma mulher na porta do hospital diz para o repórter "Estou tão triste... ele criou o moonwalk, é devastador", e chora.)

07 junho 2009

Capítulo XXIX: o Imperador.

Fui comprar uma blusa. A que eu queria não tinha no meu tamanho. Enquanto eu esperava um funcionário procurar a G no estoque, imaginei uma situação toda. Como ele achou, esqueci tudo. Cheguei no caixa. Ouvi "Vamos fazer um cartão da loja, senhor?", e isso me subiu o sangue.
Há um tempo resolvi fazer esse cartão para ter descontos na compra. Para fazê-lo, era preciso ter pelo menos o RG, e nem com isso eu estava. Doida que estava a vendedora pensando em sua comissão, aceitou a carteirinha da faculdade para começar o processo. Ela disse para mim e depois ficou repetindo para si mesma, "Eles precisam abrir uma exceção...". Me passaram para mãos mais burocráticas. Depois de um olé de mais de uma hora, recebi a notícia de que meu crédito não tinha sido aprovado, e que eu poderia tentar novamente só depois de um mês. Saí da loja dando juras de desamor a ela, juras de nunca mais voltar. E lá estava eu na boca do caixa. Voltei.
"Não, vocês já me recusaram crédito uma vez", respondi, com esperanças de ter vencido a ambição da moça. Ela perguntou "Mas há quanto tempo isso aconteceu?", e fez uma cara analítica e confiante. Analítica porque a minha resposta era o x de uma equação que ela já tinha pronta na mente, e confiante porque ela sabia resolvê-la. Ao invés de dizer o x, já respondi a equação toda: "olha, foi há mais de um mês, mas eu não quero saber desse cartão, vocês terem recusado crédito foi uma humilhação pra mim". "Moço..." Paguei, disse obrigado para a caixa que não tinha a ver com a situação, fui embora nervoso. Por causa disso, a tal "situação toda" imaginada voltou, e maior.
O funcionário chegou e disse "Não tem G". Eu disse "Quero falar com o seu gerente". Aí já estava eu falando para o gerente "Como vocês podem só pôr blusa M na loja? Vocês querem perder essa compra? E vocês devem ter um lucro enorme com essa blusa, 80 reais?, deve ser uns 20 para fabricá-la, é época de frio, essa marca só é distribuída por vocês, senão eu já estava fora daqui, só o monopólio pra fazer uma loja manter um atendimento desses". Ele descaradamente perguntou "E o que você quer que eu faça?", e eu "Eu tenho cara de consultoria? Se você quer que eu te ajude me contrata!", e depois que eu falei onde estudava e meu curso, ele me contratou. Saí ligando para pessoas radiante, "Arranjei estágio do jeito mais louco possível!", e de repente caí na real. Eu estava me sentindo feliz de verdade, como se tudo isso tivesse acontecido, sendo que eu estava era dentro dum busão, segurando uma sacola com uma blusa G dentro, tão ali quanto cada pessoa ali.
Isso vive acontecendo comigo, e não sei o que isso significa. Eu vejo algo acontecendo e imagino n situações decorrendo daquilo, paranoicamente. Nessas eu já me imaginei, por exemplo, sendo morto a tiros, queimado, esmagado, degolado; matando várias pessoas de diversos modos, desde soltando a mão dela na beira de um precipício, até metendo um carro que eu dirigia num obstáculo qualquer para o passageiro voar; sendo assaltado, e reagindo de diversas maneiras, às vezes morrendo, às vezes sendo ferido e levado pro hospital, às vezes me dando bem; tendo coragem de falar o que eu penso e obtendo a resposta que vai me garantir felicidade pela vida inteira (ilusão dentro de ilusão); morando no meu AP dos sonhos; sendo bem-sucedido no trabalho; et cetera. São coisas terríveis e maravilhosas.
Não sei bem o que concluir desses "momentos". Porém, encontrei uma explicação simples do porquê de isso acontecer: "Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus." Eu sou normal, o problema é o tal recanto. Ou pelo menos não sou louco sozinho.

27 novembro 2008

Posts descritivos.

Há muito tempo eu queria postar sobre aquiiilo, mas o acesso a computadores tem sido bem difícil e sequer uma caneta eu tinha para escrever um post. Agora eu tenho, então bora.
Quase que eu não vim. Fiz a entrevista no consulado para obter o visto num dia em que tentaram fraudar documentos, então passaram todos os entrevistados do dia num pente fino. Eu creio que isso tenha acontecido para enrolarem tanto para entregar meu passaporte. Mesmo. Eu estava com ele na mão faltando pouco mais de uma hora pra terminar o check-in para o vôo. Peguei carona com pessoas que também estavam correndo atrás de passaporte, na central dos Correios, na casa do cac*te, para o aeroporto. Nem voltei pra casa pra tomar banho, fiz minhas malas pelo telefone, entrei correndo literalmente no aeroporto, fiz check-in, abraço na família, tchau, embarque. O vôo durava 9h30 e eu não sabia porque tem uma diferença de 3 horas entre a região na qual eu estou e o horário de Brasília. "Peguei emprestado" um Dramin com uma mina pra "curtir" o vôo. Fiquei as 9h30 sentado, dormindo ou entrando na vibe dos americanos.
Quando chegamos em Atlanta (de modo turbulento), saí do avião e putz, estava mais frio do que eu já tinha sentido antes. O blazer que eu estava vestindo congelou inteiro por dentro. Pelo menos dentro do aeroporto era aquecido. E que aeroporto. Ele é tão grande que TEM UMA LINHA DE METRÔ DENTRO DELE, tipo, só pra ele. EU PEGUEI METRÔ pra ir de onde eu desembarquei pra onde eu faria conexão. E aquele lugar era tão... norte-americano. Guardinhas negões falando inglês, pessoas passando por mim falando inglês, TVs ligadas em canais em inglês, um time de basquete passou por nós, etc. Aquelas máquinas que no Brasil vendem barra de chocolate (ou que vendem livro, no metrô) vendiam fones de ouvido de 450 dólares e iPods. Enfim, outro mundo.
No avião para Orlando eu não estava drogado, então eu fiquei com mais medo. Na decolagem o avião ia pros lados. Aliás, ele estava cheio de pessoas que eram o estereótipo dos norte-americanos. Pelo menos metade deles estava com um BlackBerry. Um estava lendo um livro chamado "Built To Win". A aeromoça tinha cara de megera norte-americana. Todos eles pareciam o Al Gore ou a Martha Stewart. Infelizmente, nesse vôo foi que eu tive a sacação de que eu estava sozinho num país e que eu ficaria mais de 2 meses nele, e também foi aí que eu me senti a pessoa mais sozinha do mundo, achei que tinha dado um passo maior que a perna e que não ia conseguir. Pior ainda, essa sensação aumentou durante o dia.
O avião pousou com um tranco tão forte que um daqueles lugares acima da cabeça de guardar mala de mão escancarou-se. Fomos recebidos pela Disney e levados para o condomínio, e esse foi um dos momentos de choque cultural. A janela do ônibus parecia uma tela de cinema, não um vidro, porque tudo era MUITO norte-americano. Os carros, as rodovias, as placas em inglês, o rádio do ônibus, as pessoas. Mais tarde, quando fui eu e um roomate pro Wal-Mart, o choque foi maior ainda. O conteúdo das prateleiras é tão diferente, assim como os preços. Pelos corredores vão norte-americanos obesos mórbidos em carrinhos elétricos, muito mais hispânicos do que eu imaginava, e muito mais brasileiros, também, isso sem contar os da Disney. Tem muita, muita tranqueira à venda, e da boa. Eu comprei um pacote gigante de nachos e quase um quilo de molho de tomate com pedaços de outras coisas. Comprei aqui meu primeiro Haagen-Dazs, quase meio litro por 3 dólares. Um creme de barbear que no Brasil é 20 conto paguei US$ 2,50. Comprei outro dia 12 donuts por 4 dólares e dividi a conta com um cara do condomínio. 24 latas de Coca-Cola, 5 dólares. Em compensação, paguei 68 cents numa cebola, mais de um dólar numa alface, 5 dólares num adaptador de tomada, quase 7 dólares num Big Mac. Esse Big mac, em compensação, era num McDonald's open bar de refri, de café, de ketchup, mustard, hot mustard, barbecue e s+s, um molho meio doce. No meu último dia aqui eu vou pro Mc com uma garrafa de 2 litros pra encher de molho barbecue, porque é MUITO gostoso.
Voltando para o primeiro dia, chegamos no condomínio com a chave do nosso quarto na mão. Cheguei no meu quarto e já tinha dois roomates, os dois gente boa, brasileiros e paulistanos. Teve gente que caiu com 5 chineses ou 2 colombianos e outras combinações. Esse intercâmbio cultural é até legal, mas traz inconvenientes tão... inconvenientes que faz perder a graça, como uma mina que mora com chinesas porcas que deixam a cozinha fedendo depois de fazer as comidas tradicionais delas, o cara que caiu com 2 mexicanos que comem no McDonald's e deixam o pacote das coisas lá jogado no chão, etc. Aliás, todas as pessoas que eu conheci até agora e com quem eu fiz amizade são brasileiras. Encontrar brasileiro é tão legal =]! Andando na rua, quando dois brasileiros se ouvem conversando, na hora já puxa assunto um com o outro, e nos parques também. Todo mundo que trabalha na Disney tem uma nametag, um troço que vai no peito com o nosso nome e de onde nós somos, aí os brasileiros já vem superfelizes conversar com a gente.
Voltando pros roomates, o que chegou por último ficou menos de uma semana no quarto, mudou-se, entrou no lugar dele um que é primo de um que já estava aqui. Todos os meus roomates são limpos e organizados, grazadeus, porque a Disney passa uma inspeção agendada e outra aleatória nos quartos e se estiver sujo tem multa. Ontem eu derrubei bolo no carpete e fiquei morto de medo de sujar e nunca mais sair a mancha. O que eu fiz foi espalhar a mancha de modo que ela desaparecesse no carpete, e ficou perfeito!
Esse bolo, inclusive, foi o roomate primo do primeiro que fez de dia de Ação de Graças. By the way, nossa alimentação é um lixo. Meu pai pôs uns 30 Miojos na minha mala e isso me poupou de comer o lixo supremo que todos comem aqui, uma comida congelada chamada Michelinas. Dá desgosto de ver, mas é a coisa mais barata aqui, perto de 1 dólar. Tenho vivido de salada com muito, muito molho, Miojo, pão de fôrma com manteiga "roubada" do avião ou de qualquer lugar que seja "open" de sachê (quando vamos pra esses lugares enchemos o bolso de sachê de sal, açúcar, etc., pra não precisar gastar com isso) e de Centrum genérico (chama Equate). Comprei 300 cápsulas por 8 dólares, e por muitos dias isso foi meu café da manhã.
Falar em café da manhã me lembra dos meus horários insanos de trabalho, mas pra não esgotar o assunto, do trabalho eu falo no próximo post. Eu espero que toda essa narração da viagem seja não só divertido pra quando eu ler no futuro, mas útil pra quem quer ser cast member ou pra quem quer viajar pro exterior.
Hope you enjoy it. I miss everybody from Brazil, every little person.

Sincerely yours,
Arthur!

18 setembro 2008

HERE I GO.

Fiquei meses enchendo o saco com isso, agora eu paro: fui selecionado pra ser Cast Member 2008/2009!!!!!! Esse ano liberaram primeiro os reprovados e em stand-by (que ficam esperando um aprovado desistir) e meu nome não estava nessa leva. Tive prova na hora em que liberaram os aprovados no ano passado, fiz que nem my ass, duas horas depois ainda não tinha liberado, assisti à aula de Estatística que nem my ass, bandejei, fui conferir de novo e estava lá basicamente "parabéns, ligaremos em breve, confirme esses dados, logo você se cadastrará no site do consulado". Imaginei ao longo dessas duas semanas de espera que pareceram meses como seria "o" momento, mas não foi nada que eu imaginei. Ao invés de pular, abraçar todo mundo, molhar o teclado do PC, eu li "parabéns" e sosseguei. Essa espera diminuiu minha expectativa de vida, mas vai valer a pena. Tudo que eu fiz foi pensando nessa viagem, e todos os meus planos para daqui até um ano baseiam-se nela. Claro, eu ainda  preciso do visto, mas não deve ser pior do que o que já passou. Todas as economias, o investimento em tirar um passaporte, todos os "não, mas ou eu vou ou eu vou" que eu respondi com aquilo na mão quando me falaram "mas você ainda nem sabe se vai", tudo está recompensado. Não acho que eu esteja suficientemente feliz com isso porque ainda não caiu a ficha do que tudo isso significa, mas reação inesperada: o resultado me deixou tranquilo. Agora eu sou tranquilo. E quem aguentou todos esses meses de paranóia, de mania de perseguição, aos escolhidos a dedo pra me apoiar e aos que não foram e me apoiaram, valeu demais!

26 julho 2008

Pensamentos condenáveis.

Um garoto de três anos morreu quando a polícia metralhou o carro no qual ele estava, no Rio. Sua mãe, em entrevista comovente, disse que falou para ele abaixar, e ele respondeu: "mas por quê, mamãe?"

Meu primeiro pensamento foi: mas então não mereceu morrer??

Foi a primeiríssima coisa que veio à minha mente, como a continuidade de um pensamento lógico ao imaginar a cena: tiros pra todo lado; se, ao invés de abaixar, quis saber por quê, tem mais é que morrer. Quase uma seleção natural. Isso aconteceu de novo e pior, pois extrapolou o pensamento e eu estava na companhia de duas mães que conversavam sobre isso. Quando eu soltei o "ahh mas então não mereceu morrer? hahaha" obtive como resposta um silêncio sepulcral, ironicamente.
Fiquei com peso na consciência por ter sido natural nas duas vezes, como um senso comum. Pareceu que o meu mais verdadeiro eu é uma pessoa sádica e insensível, até que começasse a parecer para mim que, na verdade, todas as pessoas o são, e que esses pensamentozinhos condenáveis estão por toda parte.
Se isso fosse só comigo, não seria necessário pensar antes de falar. Aliás, o que é pensar antes de falar além de... reprimir algo que o resto do mundo acharia condenável para viver em sociedade?? Se a entrevistadora, após a descrição da mãe, perguntasse "mas você não acha então que foi melhor que ele morresse, afinal ele não vai passar os genes do reflexo lento pra frente?", viveríamos num mundo sem hipocrisia, mas triste. Falar na cara é honesto, mas um eufemismo certamente é melhor por passar a mesma mensagem e ainda ser agradável.
Pensamos coisas condenáveis o tempo todo que surgem de qualquer conversa. Quantas vezes, ao sermos atingidos por tais "idéias", não procuramos com os olhos alguém que nos apóie e, ao encontrar o mesmo olhar no outro, ambas as partes confirmam com um sorriso malicioso... Isto foi o que ocorreu comigo, com a diferença de que na primeira vez não encontrei o tal olhar e na segunda eu falei, no impulso.
Com amigos "apreciadores" de humor negro, passaria batido. Um dos que eu conheço chora de rir ("porque é muita mancada") quando eu conto de uma mãe que recebeu um scrap de um anônimo tirando uma por seu filho de 5 anos ter morrido de câncer. Outro conta e cria piadas sobre a Isabela. Enfim, eu não sou a pior pessoa do mundo (ou é disso que eu estou tentando me convencer). Alguns falam tudo que vem à mente, outros preferem manter a civilidade. Parece para mim de novo que todo mundo é podre.

03 julho 2008

Organização.

Fim de semestre. Provas e trabalhos, caos. Organização de festa. Este último não costuma fazer parte do final de semestre de um universitário, mas fez parte do meu desta vez. Os colegamigos de trabalho do Etapa mais extrovertidos começaram a organizar a tradicional Festa da Firma (firma porque firma é empresa de peão). Depois de um dia de trabalho num sabadão os organizadores se reuniram num boteco para decidir detalhes da festa. O Arthur S. foi de feliz. Pedimos duas cervejas pra quase 10 pessoas para ter direito de usar as mesas do lugar. Saímos de lá mais de uma hora depois, xingados pelo dono. Fui descobrir uns dias depois que tinha virado organizador da festa.
Pãtz. Eu nunca organizara uma festa. Pelo menos fiquei com a melhor parte - a de receber o dinheiro de quem fosse. Ninguém me pagou, talvez pela minha fama de mercenário no setor, que o pessoal deve ter confundido com ladrão.
Não passou nem um mês e deu m*rda. O cara que cederia a casa brigou com outro por causa de um rolo com a data e por outras coisas e mandou tudo pra p*ta que o pariu. Ficamos sem teto até que uma bixete fosse persuadida por outra a ceder a casa dela. Definiram uma data para a festa.
Faltando duas semanas para a dita cuja acontecer, caí na real através de um comentário estúpido de um colegamigo de trabalho que eu estava totalmente "away" de tudo, então me dispus a pesquisar preços. Nunca pesquisei os tais preços, fui direito pro lugar que julguei ser mais barato - um atacado.
Fomos, aliás. Eu, irmã, bixete. Só eu e ela de organizadores. O resto ou tinha aula, ou tinha seminário, ou caiu fora da organização na última hora porque senão ia pegar DP (este último, aliás, saiu do Etapa pra ganhar uma nota preta. Talvez eu também devesse ter caído fora.)
Compramos dando tiro no escuro, isso na véspera da festa. Eu era o único organizador com carta e carro. Levei tudo pra casa, fui correndo pra USP fazer a prova surpresa do professor c*zão da última aula, e de lá (depois de bandejar em 7 minutos) pro Etapa camelar.
Dia seguinte, sábado, trabalhei o dia inteiro. Alguns organizadores também, outros não. Saí do Etapa com um deles pra minha casa pra pegar o carro pra comprar mais coisa pra levar tudo. Mais tiros no escuro comprando, fomos. Chegou lá, precisamos fazer mais compras ainda de última hora, tudo sendo debitado da minha conta. Apareceu uma penca de gente, um monte sem pagar.
Tudo comprado, hora de curtir. Não. Corta tomate, corta cebola, chora, faz vinagrete, acaba vinagrete alguns minutos depois. Fizeram salada de maionese, acabou na hora. Dois quilos de pão, duraram minutos.
Resolvi desapegar. Bebi dois copos de Smirnoff Ice caseira. Depois um pouquinho de batida de morango feita com duas latas de leite condensado cheias de 51. Quando eu dei o último gole, que eu entortei pra trás pra beber a última gota... olhei para o céu. Ele olhou para mim, cheio de estrelas. Em retribuição à olhada, todas elas começaram a girar, girar... fui caindo pra trás, sem acreditar que já tinha ficado bêbado.
Daí pra frente foi só gente falando "Arthur, senta", "Você não tá bem", "Come alguma coisa, você tá vermelho". Parei de beber naquela hora, eu estava de carro e daria carona.
Fomos embora dali a quase duas horas, antes da meia-noite. Eu e mais cinco no Celtoso. Não fui dirigindo porque o pessoal ainda achava que eu não estava bem, sendo que eu tinha conseguido andar em cima da linha do piso da piscina sem cair nela! Pior que eu saí feliz, tinha achado boa a festa. Agora ainda estou esperado gente pagar.
(A idéia deste post era mostrar o lado bom da organização da festa, mas conforme fui escrevendo, na mão mesmo, durante um simulado que não precisa ser fiscalizado (ITA, certo, pedagers?), vi que tinha muito ressentimento guardado e virou o que virou. Quem ajudou, valeuzaço. Quem não ajudou e só reclamou, aqui, ó.)

Closer.

Criei o marcador/tag disney porque isso é importante para mim neste ano, além de ser útil para quem quer entrar neste processo futuramente. No último post sobre o assunto, ainda era só vontade; hoje, as coisas já andaram.
Fui à palestra com um colegamigo de trabalho. Chegamos em cima da hora, por minha causa. A palestra foi em inglês, e eu entendi tudo inacreditavelmente bem!! Dia seguinte, entrevista, em inglês e em dupla. Meu, parece que eu perdi a noção/inibição social falando em inglês! Falei coisas que eu julguei posteriormente serem condenáveis, dei uma atacada no cara sendo entrevistado comigo quando ele falou uma buuullshit... porém, eu fui extremamente honesto e mostrei isso, a entrevistadora disse que meu inglês era muito bom, ela parecia se envolver mais com as minhas respostas que com as da minha dupla...
Saí encanado, de qualquer jeito. O resultado sairia dali a 26 dias, então decidi nem ficar ansioso, já bastava minha pressão ter batido em 14 x 10 no dia da entrevista.
Todo mundo que eu conhecia, sem exceção, me deu apoio. Isso foi muito, muito importante. Quando eu falava sobre isso, direto respondiam "relaxa, você passou", "você foi bem", como se fosse óbvio...!
No dia do resultado, soube que era costume sair à noite. À noite eu estaria trabalhando. Achei que fosse ficar martelando isso durante todo o trabalho, mas foi tão caótico que eu esqueci... até minha mãe me mandar uma SMS perguntando se eu queria que ela visse o resultado. A partir daí, foi terrorismo. Liga perguntando e-mail, passei, liguei, "Calma, nem cheguei no computador ainda!", liga de novo, "Passa seu e-mail de novo que não tá entrando", "Mas não é possível!", conclusão: meu dados foram cadastrados errados. Mandei e-mail pedindo pra consertar e comecei a fazer análise combinatória de sobrenome e e-mail testando tudo que minha letra horrível tivesse dado a entender. Nada funcionou.
Fiquei o dia seguinte no computador, fazendo isso que eu disse + F5 no meu e-mail. Uma hora cansei e fui tirar uma soneca. Acordei com o celular tocando, era minha mãe perguntando se já tinha saído. Eu disse que não, dei F5 enquanto eu falava isso, e TINHA LÁ UM E-MAIL DA STB! Eles diziam que agora dava pra eu entrar. Celular numa mão, digitando com a outra mão, site, nome, e-mail, mouse no OK... Entrei num tempo psicológico que se arrastou. A tela ficou branca por uns 2 dias. Aí apareceu "Parabéns, você foi selecionado..."
C*r****lho meu, o que foi aquilo... falei "passei" no celular, minha mãe comemorou, desliguei. Fiquei tremendo uns 10 minutos, que nem quando eu vi o resultado da FUVEST.
Não era para tanto, convenhamos. Eu passei na primeira fase. No vestibular, quando eu vi que tinha passado para a segunda fase foi legal, mas eu não fiquei no estado em que fiquei nos outros dois casos.
Na página, pedia-se que um e-mail fosse criado com eles para passar novidades sobre a seleção. Ainda tem uma entrevista e uma palestra pela frente. Apesar da encanação pós-entrevista, antes dela eu era o cara mais confiante do mundo. Agora eu estou no mesmo clima. Já que ninguém sabe ao certo o perfil que eles querem, não tem muita alternativa a não ser ter confiança.

06 maio 2008

"O horror que temos de nós mesmos"

Finalmente alguém falou disso, e ainda por cima considerando um outro fato muito interessante. "Achadinho" no jornal Destak (aquele que você pega no metrô).

"Muita gente, em especial a imprensa, tem criticado a maneira como parte da população reage ao espetáculo midiático que virou o caso Isabella Nardoni. Haveria histeria e exagero.
De minha parte, creio que a reação é natural. O crime cometido é medonho.
Há, sim, exagero na cobrança de rapidez no chamado 'processo legal'. As pessoas querem os acusados na cadeia, mas as investigações ainda estão em andamento. Mesmo assim, vejo também como compreensível a exigência de que tudo seja mais rápido. Afinal, já estamos acostumados a pensar na nossa Justiça como lenta.
O que mais me impressiona, porém, são as pessoas que resolveram fazer figuração nesse caso, como se tudo fosse mesmo um espetáculo. Falo das pessoas que vão para a porta da delegacia ou do prédio onde estão os acusados.
O que faz alguém, numa cidade complicada como São Paulo, sair de sua casa e ir gritar 'assassino' e jogar pedras contra os acusados e seus parentes? A resposta é aterradora. Essas pessoas, no fundo, estão exorcizando os seus próprios fantasmas. A tese não é minha. É do psicanalista Contardo Calligaris, uma das vozes mais lúcidas do país. Com seu ódio, essas pessoas querem dizer 'nós não somos monstros, nós não matamos crianças'. Só que, como lembra Calligaris, a vontade de afirmar a diferença de modo violento indica que o indivíduo, na verdade, sente-se semelhante àquele que hostiliza. Aquelas pessoas precisam dizer ao mundo que elas são diferentes porque, no fundo, são bem capazes de espancar os seus filhos.
Duvida disso? Veja o crescimento dos índices de agressão a crianças (...). Veja que o principal agressor é a mãe. Noutro dia, informamos que, em sete anos, mais de 300 crianças foram mortas dentro de suas casas na cidade de São Paulo. E isso, como publicamos, é só a ponta do iceberg."

Pena que este artigo estava espremido em um canto do jornal e pareceu cortado no meio. Se falasse mais sobre essa teoria de reprimir o que se é de verdade ficaria muuuito melhor...

29 abril 2008

Carta 2.

Tirei carta de motorista. Meu pai me dava aulas porque ele já foi instrutor, e parente dar aula é um negócio totalmente não-profissional, com direito a ataques de fúria da parte do pai e do filho. Ele reclamava de qualquer coisa, e quando eu fazia certo, não abria a boca. Hoje, depois de ter carta, ainda é assim, e provavelmente nunca vai mudar. Falando pra alguns amigos disso, todos disseram que isso acontece com eles, também. Eu achava que era só comigo (que eu dirigia mal e que por isso ele reclamava), então saber que todo pai reclama me deixou bem mais tranqüilo.
Mas aí vem... a minha mãe. A dos meus amigos é diferente. Elas dirigem mal, eles dirigem melhor. Minha mãe está até com a carta vencida, mas quando eu faço umas coisinhas de gente que ainda está aprendendo a dirigir, ela reclama mais que o meu pai. Por exemplo, quem, quando está começando a dirigir, consegue trocar a marcha e fazer uma curva ao mesmo tempo?! P*rra, precisa de uma coordenação boa, e eu estava vindo com ela do mercado (e foi muita bondade minha levá-la porque eu precisava estudar), fiz isso e ela ficou "aaai esse carro não agüenta muito tempo assim". Pelo menos ela tem algo em comum com as outras mães: é só chegar um pouco mais perto do carro da frente, mas nada que represente perigo, que ela já começa a gemer de medo.
Com tanta "co-pilotagem", achei que nunca fosse gostar de dirigir. Quando eu pegava o carro era mais para treinar, não porque eu estava gostando daquilo. Eu sentia isso e via o comercial do Polo falando "pelo prazer de dirigir". Eu me sentia um estranho.
Eu ainda não tinha pensado, entretanto, que se sempre tinha alguém para criticar, como seria dirigir sem ninguém do lado? Fui buscar minha mãe na escola e foi ótimo dirigir sozinho. Ótimo. Foi só ela entrar no carro pra eu começar a fazer c*gada, sabe-se lá o porquê disso. Pelo menos eu sabia que dirigia bem :-).
Até aí eu não tinha parado pra pensar também como seria dirigir com outra pessoa do lado que não fosse pai e mãe, e eis que fui buscar minha irmã no metrô um belo dia. (Aliás, noite de chuva.) Parei num lugar proibido parar e estacionar e fiquei esperando. Nada dela. Fui fazer um retorno pra parar no mesmo lugar e perdi a p*rra do retorno. Fui indo embora pela Radial Leste ZL adentro até encontrar outro, mas que dava numas quebradas.

Pronto, estava perdido com o carro.

Fui entrando em ruazinha, saindo em ruazinha, voltei uma, saí num lugar que dava pra Radial de novo. Liguei pra casa, falei que estava perdido e que iria demorar. Fui sentido centro sem lembrar de um retorno sequer até que apareceu um do nada. Eu estava meio veloz, entrei com tudo nele e eis que ele saía exatamente na rua que era para ter entrado alguns minutos antes. Cheguei no metrô com expressão de vitória, até buzinadinha dei pra minha irmã. Para melhorar, ela ficava elogiando como eu dirigia, desde "meu irmão tá crescidiiinhooo" até "ohh trocou a marcha bonitinhooo!!!"
Este episódio me deu uma confiança tremenda pra dirigir. Daí pra frente começou a ser prazeroso dirigir (rápido, principalmente). Meu pai passou a ter menos motivos para reclamar, minha mãe fala que eu estou dirigindo melhor. Talvez as críticas contundentes do meu pai tenham sido boas. Elas me fizeram ficar furioso e querer dirigir melhor que taxista com 30 anos de experiência. Eu achava, aliás, que não tinha como dirigir melhor, que você nascia com uma capacidade espacial x e que ela definiria sua direção. Não podia estar mais errado. Experiência vale para tudo, é possível aprender e se superar em tudo. Eu sei que um dia eu vou conseguir trocar marcha e fazer curva ao mesmo tempo, e eu sei que, quando minha mãe renovar a carta dela, vai ser a minha vez de reclamar muuuito de como ela dirige. Logo, mais uma vez, estou movido pela vingança. :-).

23 março 2008

Mais de um mês sem nossa dogona.

Aqui em casa tem-se o hábito de ir ao médico em última circunstância. Depois de passar mal, de se automedicar, é que se começa a pensar nisso. Se o doente parar de comer, aí sim é que vai para o médico. Isso aconteceu com uma das nossas cachorras.
Fazia muito tempo que eu achava que ela estava mal. Ela não era de pedir carinho, e de muitos tempos para cá ela se encostava na gente o tempo todo querendo carinho na barriga. Coisa de anos. Ela vomitava com uma certa freqüência desde sempre, então nós considerávamos normal. Ela precisou começar a ficar quieta e parar de comer para alguém fazer alguma coisa. O(a) primeiro(a) veterinário(a) era um(a) corno(a) que achou que a Sheerra estava com o útero zoado e já marcou uma cirurgia para capá-la. O ultrassom era opcional fazer. Fizemos, e constatou-se que os rins dela que estavam péssimos.
Fomos para outro veterinário que deu soro pra ela para ver no que dava dentro de uma semana. Até aí nossa doga já estava quilos mais magra e não parava de tremer. Vivia com cara de que estava com dor mas que agüentava. No final das contas, esse tratamento não adiantou nada e o vet falou que ela precisava de um transplante. Para sobreviver por mais tempo, precisava de hemodiálise por trezentos reais a sessão. Como o pessimismo da minha mãe confirmava, era se preparar para a despedida.
Um dia ela já não andava mais. Tive de carregá-la para dentro de casa e, quando eu a deixei em cima do paninho dela, ela caiu para o lado. Meu pai decidiu que não tinha como vê-la morrer daquele jeito e a levou para a hemodiálise. Para esse mesmo dia estava marcado um amigo secreto. Minha irmã não foi, mas eu fui, totalmente triste.
Uma hora eu liguei pra minha irmã pra saber como estava indo e ela me disse que eles tinham um tratamento pra sarar cão com rim zuado. Era caro, mas pela vida de um parente você não tem como hesitar. Ela foi internada naquele dia.
Fui lá vê-la com meu pai e mãe no dia seguinte ou dois dias depois. Ela estava dopada, com uma agulha na pata... eu saí de lá mal pra caramba.
Os dias foram passando e todo dia eu e a Vick marcávamos de ir lá vê-la, mas a gente nunca foi. No dia em que ela voltaria eu estava trabalhando. Liguei pra Vick para saber como ela estava e ela disse que eles ainda não tinham chegado. Terminei um horário e estava no intervalo antes do horário da noite e liguei pra ela pra saber da Sheerra. Ela tinha morrido naquela tarde, umas 3 da tarde. O coração dela parou, tentaram reanimá-la, conseguiram, o coração dela parou de novo, e não voltou mais. Ela morreu sem ninguém da família por perto...
Eu ainda tinha de trabalhar, então engoli o choro e fui. O pessoal me deu um apoio e eu liguei para a Bruna para falar o que tinha acontecido, pra compartilhar a dor, uma atitude totalmente egoísta. Eu já estava destruído por dentro e ainda deu m*rda no Etapa, o que deixou meu dia o pior que eu já vivi.
Voltei pra casa sem querer voltar, porque eu estava imaginando o clima de velório que estaria lá. Eis que eu saio do ônibus, pronto pra soltar tudo, e não saiu nada. Atravessei a rua mas, quando eu olhei pros lados pra atravessar e vi a lua, cheia, não sei por quê, mas isso me detonou, e no meio da rua, lá pras 11 da noite, fui chorando que nem criança pra casa. Cheguei em casa chorando, meu pai me consolando, eu chorando, e foi assim por um bom tempo.
Eu já tinha tentado imaginar como seria para mim a morte das nossas cachorras, e eu nunca achei que seria tão impactante. A Sheerra faz muita, muita falta. Quando o carteiro passava era ela que agitava os latidos, ela que tinha aquele bochechão de boxer que a gente apertava o tempo todo e ela não gostava, era ela a amiga da Tchutchuca, a cachorra que ficou.
O velório dela foi pior. Eu fui para vê-la uma última vez antes que ela fosse queimada até virar pó. O pessoal do lugar onde ela ficou sequer tirou o cabo enorme de grosso que estava no pescoço dela para fazer hemodiálise. Ela estava muito fria e um pouco molhada porque deram banho nela antes de velá-la. Ela ainda estava com o olho um pouco aberto. Meu pai falou para não olhar para eles porque poderiam ainda conservar o sofrimento dela, mas eu achei que eles pareciam mais de sono. Eu não queria sair de perto dela, queria ficar lá todo o tempo possível, mas a minha irmã estava sofrendo demais e, além disso, o que estava sendo velado não era mais a nossa cachorra... ela já tinha ido embora desde que o coração dela parou. Ela existe agora só na nossa lembrança, o corpo dela não é ela.
Ela está agora em forma de pó na nossa sala, em uma caixa. Ter o pouco dela que não virou ar ali me confortou um pouco, estranhamente. Querem jogá-la numa pracinha que ela gostava de ir, mas eu sou contra, porque outros cachorros vão fazer suas necessidades em cima dela. Por mim ela fica aqui com a gente para sempre.
A nossa outra cachorra está um nada agora. Dorme 23 horas e meia por dia, e a outra meia hora fica deitada. Já falei que se comprarem outro cachorro eu saio de casa. A dog da minha prima veio aqui antes de ontem e a nossa não gostou, o que sugere que trazer outro cachorro não é uma alternativa.
No dia seguinte à morte eu deletei todas as fotos que eu tinha dela do meu celular achando que esquecê-la era o melhor jeito de superar isso. Não funcionou. Todo dia eu penso na Sheerra e não me conformo com o tanto que ela sofreu. Não serve pra nada pensar nisso, mas é irracional, é revoltante. Todo dia eu sinto saudades dela, e parece que isso nunca vai passar. Já faz mais de um mês que ela se foi, e o que eu sinto todo dia lembrando dela não muda. O pior disso é que eu sei que há outra morte por vir, e mais sofrimento junto. A cachorra que ficou está comendo pouco e começou a vomitar com certa freqüência, mas enquanto ela não pára de comer de uma vez por todas meus pais fingem que está tudo bem. Minha vida está insana esse semestre e eu não posso cuidar disso por mim mesmo, ou com ajuda da minha irmã. Só um exame de sangue poderia falar o que está acontecendo com a Tchutchuca, se é rim zuado ou depressão.
Morrer cedo é característico de boxer, raça da Sheerra. Ela morreu com oito anos e meio. Ela tinha alguns tumores e os rins dela, segundo os últimos veterinários, parece que nunca funcionaram muito bem. Ela teve filhotes, e já avisamos para quem nós conhecemos que ficou com algum filhote para fazer um exame de sangue neles para ver o nível de creatina (ou creatinina, sei lá) deles. Em compensação, boxer deve ser a raça com os cães mais dóceis e fofos e legais. A Sheerra era demais. Mesmo assim, eu nunca gostei da idéia de ter animal de estimação justamente por ser mais provável que eles morram antes de nós, e agora eu desaprovo totalmente a idéia de ter um. Os momentos bons não superam isso que fica depois da morte.

12 janeiro 2008

Diversões estranhas.

Eu disse há alguns posts atrás que me falaram que eu gosto de diversões estranhas. Este começo de ano está de prova que eu estou no limite entre o que pode ser considerado se divertir com coisas normais.
A primeira diversão do ano foi praia. Todo mundo gosta de praia. Eu gosto um pouco, e na verdade gostei mesmo só do último dia, porque o mar estava excelente e porque eu estava indo embora. A segunda diversão do ano deve ter sido andar. Eu gosto muito de andar. É até útil porque eu vou fazendo um mapa da cidade na cabeça e acabo me achando nos lugares mais remotos.
Nessa última semana as diversões ficaram estranhas. Segunda-feira eu fui doar sangue. Isso acabou virando diversão porque a minha intenção era andar até o metrô Jabaquara (saindo do metrô Ana Rosa = 7 estações a pé) e fui acompanhando o pessoal que já ia doar até o metrô Santa Cruz, mas acabei descendo a rua que dava no hemocentro (que parecia um restaurante vendo de longe) e doei com eles, com direito a foto doando e tudo. Passei meio mal depois de doar, e antes também: minha pressão estava em 14 por 9. Tomei um monte de suquinho que eles dão, comi um monte de bolinho e fiquei bem.
No dia seguinte fui a um rodízio de pizza para comemorar o aniversário da Bruna. A diversão não era apenas comer, mas também ir até lá. Era a menos de 200 metros do lugar no qual eu doei sangue, mas eu fui apenas de ônibus (e não de metrô, mesmo o negócio sendo do lado do metrô) pela felicidade de pagar menos para ir e pela felicidade de ir vendo o caminho!!! Caramba, eu não sou normal.
Diversão de ontem: medir minha pressão. Depois daqueles 14 por 9 eu tinha um motivo bem concreto para medi-la, e isso era o que eu queria há muito tempo. Depois de ter virado hipocondríaco por causa do recorde de 16 por 10 que eu atingi esperando o resultado do vestibular, eu fiquei encanado com isso, e louco para saber minha pressão arterial o tempo todo.
Hoje a diversão foi o Wet'nWild. Essa foi bem normal, apesar de eu não ter gostado taaanto assim de lá porque as filas não tem cobertura (então hoje, por exemplo, que fez 37 graus, das filas saía cheiro de carne humana assada) e por causa também do chão. Sim, o chão fica pegando fogo quando faz 37 graus, e em pouquíssimas vias tinha um jatinho d'água pra refrescar.
A diversão de amanhã seria um programa alternativo no CCSP vendo filmes alternativos, mas esta foi substituída por um slide show de uma viagem na casa da vó.
Bem, se eu vejo graça em coisas que passam desapercebidas por 99% da população, como ficar olhando pela janela do carro/ônibus/metrô, problema meu (orra). O que importa é se divertir, seja uma diversão pobre ou não, estranha ou não, tosca ou não.

11 novembro 2007

A última semana.

Se eu fosse atualizar do jeito que eu tinha em mente, talvez esse blog nunca mais recebesse um post, então vou pôr isso aqui e depois eu faço a atualização.
A última semana foi estranha. Tirando o feriado, que deveria ser só felicidade. Descobri poucas horas antes do dia de Finados que um cara que eu conhecia tinha morrido. Passei o dia pensando nisso e, no sábado, enquanto eu esquecia disso, fui para um pesqueiro com a família e passamos pela cidade em que ele morava. Aí deu uma estragada no dia, que acabou não sendo tão ruim de qualquer jeito porque o lugar era bom e as companhias também.
Um dia antes eu comprei meu primeiro tênis. Estava lá comprando com sensação de orgulho por estar pagando com o meu dinheiro, mas achando aquilo um tanto superficial. Machado de Assis disse que felicidade é um par de botas, mas não deveria ser...
Já me falaram que eu gosto de diversões estranhas, e antes de ontem tive a prova definitiva disso. Onde já se viu achar legal fazer exame? Um cara que trabalha comigo no Etapa precisava de voluntários para um exame nos olhos, e lá fui eu. Aqui entre nós, não tanto pelo espírito voluntário, mas por causa da minha hipocondria. Fiz o exame que ele precisava para a pesquisa e também de glaucoma, que eu pedi pra fazer. Saí de lá vendo faixa de segurança emitindo luz própria. Cheguei na estação Carrão e os prédios ao longe estavam triplicados, cada um de uma cor, e iluminados como eu nunca tinha visto. E eu achei tudo isso legal. Só faltou eu pedir pra ser voluntário em algum outro exame.
E hoje aconteceu algo nada legal. Acordei duas horas atrasado para ir trabalhar e, por isso, perdi o dia e talvez um mês inteiro. Pra piorar, amanhã tem prova. É fossa que não tem hora pra acabar.

16 setembro 2007

Sexta-sábado.

A última sexta-feira tinha tudo para ser uma convencional sexta-feira de "balada", mas a "balada" conseguiu cair na rotina e fizemos algumas coisas para apimentar a "relação".
Para quem nunca me viu e não sabe para onde vou, há um negócio chamado Noitão que é feito por um cinema alternativo. Eles exibem três filmes durante uma madrugada e depois rola um "café da manhã". Na última sexta ele ocorreria normalmente, eu iria normalmente e tudo correria normalmente, porém houve uma reviravolta no processo. Eu ficaria de vela de três casais (um de amigos, um de colegas de trabalho e outro da família). Este último par decidiu não ficar e resolveu pernoitar (o ato de bater perna à noite) na Paulista e arredores. Eu fiquei em dúvida se iria com eles porque eu estava naquele dilema da noite previsível e segura X noite sem roteiro e exposta a todo tipo de adversidades. Fiquei com a última opção.
Fomos para o Black Dog pois era o único lugar 24 horas que nos veio à cabeça. Fomos a pé. À meia-noite na Paulista. Show de bola!! O Filipe comeu um dog com salsicha de papel/de soja, a Gabi tomou suco de melão e disse que estava bom, e eu... nada. Pára, 5 conto num dog que nem é lá tudo isso?
Bem, voltamos. Nossa intenção era tentar entrar no segundo filme da noite, porém sem pagar :-). Acho que foi nesse caminho de volta que paramos na esquina da Frei Caneca com a Paulista para tomar um líquido sagrado. Jurupinga. Nós três compartilhamos um copo, o negócio tava purinho, sem gelo, e todo mundo gostou. Não tomamos mais porque não tinha ninguém para cuidar de nós (e nem vem com "Deus cuida de todo mundo" que "aquilo de bêbado não tem dono").
Foi nesse caminho de volta também que Fi e Gabi andaram descalços. Contato total com a natureza paulistana. O melhor era ver os dois atravessando correndo a avenida com cara de dor.
Antes de tentar entrar no cinema, passamos no Pão de Açúcar 24 horas para ter o que comer durante o filme. Acabamos comendo na rua, mesmo, porque não rolou. O segurança não queria deixar entrar nem quem tinha saído de lá.
Ficamos no ponto de ônibus pensando no que fazer e resolvemos andar. Dei a idéia de descermos a Augusta, e que idéia. Lá é feito de p*ta e cafetão, traveco, polícia, barzinho com fumaça de cigarro e balada meio estranha. A Gabi ainda quis ir até as profundezas e aí que virou um prostíbulo a céu aberto.
Voltamos pela Frei Caneca. Ficamos na porta de um lugar sentados até sermos tirados do estado letárgico por uma barata, e pela reação da Gabi em relação à barata, principalmente. Subimos a rua até o trailer que tínhamos comprado a jurupinga e, dessa vez, a Gabi mandou um X-algumacoisa. Depois fomos esperar o metrô abrir e eu voltei de ônibus para casa.
Eu ainda ia trabalhar na Frei naquela tarde. Meus planos eram de ficar direto, mas não deu. Nós andamos muito e ficamos cansados, e eu precisava dormir. Nem por isso foi ruim, e ainda saiu mais barato que ficar no cinema a noite toda :-D.

11 agosto 2007

Fortal.

Já que falta assunto, vou postar algumas coisas da minha única semana de "férias" (vide post abaixo) de 2007 até agora.
Ano passado eu estava no terceiro ano (já repararam que eu só falo de escola nessa m*rda?) e não fui pra Porto por causa do vestibular. Como a minha irmã foi esse ano, de algum modo passou pela cabeça da minha mãe que eu deveria ter uma viagem no estilo Porto também. Tias e primas(o) iriam para Fortaleza, e lá fui eu no pacote. Nem eu nem ninguém que me conhece melhor acreditou. Eu não curto praia, solzão na cabeça, temperaturas altas, suor e curtição.
No dia da viagem eu estava tenso. Já tinha andado uma outra vez de avião e não achei legal. A tarde se arrastou, a pizza do sábado à noite não desceu. Carreguei meu MP3 com uma hora de músicas relaxantes e fui. O vôo foi durante a madrugada, o que já é um fator de nervosismo, mas para piorar atrasou uma hora e foi pura turbulência. As músicas relaxantes eram inúteis. Até umas 3 da manhã aquela coisa sacudia e eu ficava ultraassustado. Depois disso parecia que eu estava sendo balançado no berço. Dormi uma hora na noite toda.
Bem, não vou ficar citando dia por dia da viagem, mas dar uma geral nos tops. Fomos para o Beach Park, parque aquático com o maior toboágua do mundo. Fui no maior toboágua do mundo 5 vezes. Detalhe: pra descer tinha de subir 41 metros (a altura da queda) de escada. 160 degraus. 160x5=800. Quando ele faz a curva pra descer dá uma sensação tão surreal que é preciso ir mais vezes para entender. É muito bom, não dá nem para gritar ou falar, respirar... só eu e o Renan, meu primo de 10 anos, fomos. Ninguém mais teve coragem.
Fizemos passeio de buggy e aerobunda/tirolesa na praia da Canoa Quebrada. Fizemos passeio de jangada na praia de Cumbuco com direito a mergulho em alto-mar (muuuito bom) e um mineiro encenando uma pessoa sendo comida por um tubarão. Comi lagosta. Comi muito purê de batata. Comemos macaxeira. Bebemos parafuso (maracujá + vodka + leite condensado). Bebi um troço lá que me derrubou. Bebi Smirnoff Ice antes de voar de volta. Comemos no Habib's. Não comi tapioca. Comemos castanha de caju que nem salgadinho. Peguei sol. Peguei um pouco de bronze. Saímos à noite. Andamos na orla da praia. Compramos lembranças. Bati foto em jangada. Bati foto em falésias. Bati foto dos geradores de energia eólica. Ouvi Oi FM (boa demais, pena que não tem em Sampa). Comprei chinelo da marca Dupé. Comprei Sukita 1 litro pra não ficar pagando caro em bebida pelos passeios. Fomos a uma sorveteria com 60 sabores. Fomos ao McDonald's do nordeste, o Bebelu (que tinha pelo menos dois sanduíches com nomes bizarros: Pai D'Égua e Vaca e Frango). Nadamos em várias piscinas, naturais e artificiais.
Enfim, a viagem foi muito boa, contrariando a expectativa de que viajar pra ficar vendo praia, praia e praia não é da hora. O que deu uma estragada foi o acidente com o A320 da TAM, dois dias depois de viajarmos num avião desse mesmo modelo. Na volta eu não tirei o cinto durante o vôo nem levantei do banco, mesmo sendo aquele o vôo mais tranqüilo da história. O avião sacudiu uma vez só, e uma das aeromoças não conseguia disfarçar o medinho e ficava arregalhando o olho. Uma hora, para o meu prazer, o piloto saiu da cabine e ficou olhando tenso, suando, pensando. Eu comecei a ficar agoniado até que desocuparam o banheiro e ele entrou. ¬¬'.
Cheguei em casa cheio de história pra contar, coisas pra distribuir de presente e resolvi me situar dando uma navegada na Internet. Quando abri meu e-mail descobri que teria uma prova no dia seguinte. E lá vou eu falar de escola de novo.