06 março 2011

The end.

O fim do ano passado foi composto por vários fins. Foi uma festa da qual eu não poderia voltar para casa e comentar no dia seguinte tudo o que rolou, pois quase todas as pessoas passaram pela porta da saída para não serem mais vistas.
A faculdade acabou. Passaram-se 4 anos desde que eu entrei na USP, o que coincidentemente foi o primeiro assunto do blog, a vida acadêmica (como se eu soubesse o que era vida acadêmica naqueles tempos). Eu não me formei e vou continuar indo para a faculdade, mas eu não terei a minha sala. A balada da sexta-feira não será mais comentada na primeiríssima aula da segunda-feira, ou antes, no bandejão, porque sequer as mesmas pessoas terão ido para a balada. E isso já começou a acontecer. A discussão (nome mais bonito para fofoca) da festa de formatura ficou na Internet, no dia seguinte, em frases esparsas de até 140 caracteres. Infelizmente.
Em 2010 eu comecei a trabalhar de verdade e conheci mais pessoas e fiz mais amigos. Este ciclo, entretanto, foi mais breve. No fim do ano muitos já foram embora. Um dia, o último dia de uma pessoa que trabalhava comigo, rendeu uma imagem disso. Ela se despediu de mim, foi embora atravessar a avenida dela e eu a minha. Dei de cara com um farol vermelho, então me virei e fiquei olhando. Ela estava indo embora por aquela avenida que se estendia até além do horizonte. Fiquei olhando até ela sumir (ou até o farol ficar vermelho mais duas vezes), e vi exatamente mais uma pessoa indo embora do meu convívio.
Na segunda metade de 2010 morei fora de casa. O fim do ano foi o momento de voltar para casa por questões financeiras e práticas. Foi mais uma época na qual fiz mais amigos e vivi a melhor parte da vida, e foi mais um momento do qual me despedi da maneira mais imagética.
Fui levar um dos caras da república para o aeroporto. Ele iria para casa por um mês e voltaria para a república depois da minha saída. O fim do convívio com um grande amigo era ali. E no mesmo dia e hora eu buscaria outro cara, da AIESEC, no aeroporto.
Entramos no aeroporto, conversamos um pouco, nos despedimos e ele embarcou. Desta vez não tinha uma avenida infinita, mas ele indo embora pelo saguão lotado. (Com a mala gigante de viagem que me servira de criado-mudo nos últimos seis meses.)
Primeiro foram dezenas de pessoas da faculdade embora. Depois, alguns do trabalho. Agora mais um. Fiquei no portão de desembarque pensando em tudo isso. O que seria de mim em 2011? O que vinha depois desse fim de ano tão final?
A resposta desembarcou. Pessoas vem e vão, afinal, Arthur, como você pode ver neste aeroporto. Aí está uma outra pessoa que acabou de cruzar o seu caminho.

PS.: pena eu não ter escrito este post no fim do ano passado. Tentei entrar no mesmo clima para escrevê-lo artificialmente, aqui.

07 setembro 2010

Mau resolvimento.

Fiquei com uma parte da vida mal resolvida: a do intercâmbio.
Eu aproveitei muito menos do que deveria ter aproveitado. Fui a menos festas do que deveria, fiz menos amigos do que deveria, trabalhei mais, tirei menos fotos, fiz menos besteira. Pra variar, eu fiz as coisas mais cedo do que deveria ter feito. A Disney e os meus vinte anos de idade (este post serve até como balanço geral dos meus vinte anos) me fizeram levar a vida menos a sério, a pensar menos e a me divertir mais. Já ouvi várias vezes de várias pessoas que eu penso muito, hipotetizo muito antes de fazer alguma coisa. Já melhorei bastante neste aspecto nos últimos tempos, mas ainda tenho muito a melhorar.
Pior que eu conheço uma pessoa que também pensa demais, e ela é o modelo perfeito a não ser seguido, na minha opinião. É um cara muito inteligente, mas que parece ter medo de dar a cara a tapa. Com a minha idade não tem história pra contar. Foi à primeira festa da faculdade da sua vida no último ano do curso. Quando eu o encontrei no meio da festa, gritei "e aí, tá curtindo?" (prolongando bastante mais as vogais) e ele, ao invés de gritar qualquer coisa, teorizou com voz de quem está num café: "sim, essa sensação que dá a música alta, as pessoas dançando, dá uma sensação muito boa que anima muito", e etc. Enfim, ele realizou muito pouco na vida. Ficou lá, pensando, até quando fez.
Quando encontro alguém que também trabalhou na Disney dói, literalmente, de compartilhar as experiências. Vai além da DPD (depressão pós-Disney), como ex-cast members chamam. Agora que estou procurando intercâmbio para trabalhar na minha área fico pensando se aproveitá-lo bem substituiria essa sensação de incompletude. Mas não, não é a mesma coisa. A Disney tem lá seu marketing fantástico que, por si só, já amolece uns corações só de ver fotos de lá (no meu caso, só de ouvir músicas), e isso também chega em quem trabalha lá.
Quando eu achava que estava chegando ao ponto de esquecer e tocar a vida porque não há mais o que fazer, recebi um email falando de um programa de seis meses na Disney. Simples: é entrar nesse programa, fazer o que deveria ter feito e voltar não devendo mais nada para mim. Porém, é difícil parar a vida por meio ano com a justificativa de resolver isso.
Eu achava que tinha muito, e que jogar tudo para o alto seria loucura. Um dia minha chefa me disse que queria dar a volta ao mundo por um ano. Eu disse que queria fazer o mesmo, mas que era difícil largar tudo. Quando ela me perguntou o que eu tinha e eu disse "a faculdade, o estágio", ela riu.
Eu não tenho nada. Nós não temos nada, galera. Eu posso, sim, largar nada e ir embora, porque esse é o momento de fazer isso. Depois a vida começa.
Fui atrás do programa da Disney disposto a largar o início da procura do intercâmbio de trabalho na minha área, a faculdade, o estágio, tudo. A música de uma das paradas da Disney turbinou minha vontade. Eis que aparece um dos termos do programa: já estar formado.
Respirei aliviado (como sempre faço em todo fim de post). Não preciso pensar em superar isso agora. Melhor: tenho mais tempo para pensar se voltar é o melhor meio para seguir em frente sem arrependimentos. O que vocês acham?

15 agosto 2010

A bíblia do marketing.

Estava estudando quando apareceram duas mulheres, uma japonesa e a outra meio mistura de tudo. A primeira me deu boa noite e, quando achei que ela só pediria uma informação, sentou-se ao meu lado e desembestou a falar.
Eu, bonzinho que sou, ao invés de cortá-la, mesmo que educadamente, para continuar a estudar os conceitos de experimentos em marketing, fiquei ouvindo. Depois de algumas perguntas, como se eu estudava lá na FEA, ela começou o assunto que as motivara a falar comigo: religião.
Eu, bonzinho que sou, ao invés de cortá-la, mesmo que educadamente, por não ser religioso e nem ter planos de ser, fiquei ouvindo.
Pedi um cartão delas para passá-lo para uns amigos que mantinham um grupo de estudos religiosos na faculdade. A moça da descendência variada me deu um cartão todo amassado. Coloquei-o como marcador da página do livro que eu estava lendo.
Um dia fiquei de frequentar esse grupo por consideração a um dos integrantes. Calhou de ter uma prova no mesmo dia da reunião e de eu não ter o livro daquela matéria, um livrão. Fui até o grupo com a intenção de pedir aquele livro emprestado. Esse meu amigo disse "você veio se unir a nós, Arthur?", interrompendo o discurso de outro integrante que estava descrevendo um milagre que ele presenciara seguido de uma quase convulsão dele próprio! Eu disse "não, tem aquela prova... você não quer me emprestar a bíblia do marketing?" O da convulsão me pregou na cruz com os olhos.
A japonesa, sentada ao meu lado, falava da igreja da qual elas eram e me perguntou se eu frequentava alguma. Eu disse que não, mas que eu achava importante ter um lado espiritual.
Foi eu falar isso pra ela ficar semip*ta. Ficou uns dez minutos dizendo que não é que era importante, é que era necessário ter um lado espiritual e ir à igreja para ter a vida eterna, e não apenas essa nossa vida material, no sentido da carne e do capitalismo. Pensei em perguntar se, então, quem não vai à igreja não tem alma. Deixei a chance passar para ser agradável com elas, apesar do sermão da japa.
Os últimos minutos do sermão, aliás, foram críticos. Eu já estava nem aí para o respeito em relação à opinião delas e só reparava no vão que havia entre os dentes da japa e no hálito dela, que não era nem bom para ser agradável nem ruim para me fazer criar um meio de tapar o nariz discretamente. O sotaque dela, que antes me fez sentir ternura, agora era gozado. Ela falava que a bíblia blablabla e apontava para o meu livro de marketing, o que me fez ter um estalo e lembrar da cena da bíblia do marketing e da cara de raiva do fulano do milagre. Segurei forte a risada e a transformei num sorriso ingênuo.
Conferi as horas. Já era tarde o bastante para bandejar. Achei um vácuo no monólogo para concluir aquilo e ir embora. Na semana seguinte, devolvi o livro e o cartão deve ter ido junto. Minha educação de ouvir a mulher teve como melhor resultado todos nós apenas termos perdido tempo.

(Outro post favorável a menos educação no mundo.)