24 fevereiro 2009

Encontros.

A vida boa de trabalhar na Disney é ter entrada gratuita em todos os parques. Quando não se tinha nada pra fazer, o negócio era ir pra um parque e se divertir, na medida do possível (já que a Disney é para crianças) até a hora do trabalho. Pouca gente fazia isso. Numa das vezes que eu fiz, fui em uma montanha-russa com uma mulher que eu não conhecia. Logo que o carrinho andou eu levantei as mãos e ela ficou segurando. Como cast member simpaticão eu puxei assunto e falei pra ela levantar a mão, e ela "não, eu tenho medo!" (em inglês, ela era americana). Eu fiquei insistindo e, numa queda pequena, ela levantou. Eu fiquei falando que não precisava ter medo e fiquei felizão, com os braços levantados, pra "dar exemplo". Numa hora que o carrinho volta de costas eu fiquei cantando pra ela levantar os braços, e ela conseguiu! Quando chegou a hora da maior queda, no começo da qual eles batem uma foto, eu gritei pra ela não ter medo e levantar os braços. E eis que saí na foto com os braços levantados e ela com a boca enorme de aberta gritando e com os braços levantados, mas um deles segurando no meu pulso! Ela ficou falando pros dois do carrinho da frente que ela conhecia, "eu fiz um amigo pra vida inteira!", e não abaixou mais os braços.
Trabalhando também é possível fazer esses amigos pra vida inteira. Quando cast members brasileiros passavam um pelo outro, sempre rolava uma conversinha ou um cumprimento. Numa noite eu estava trabalhando perto de uma tenda que vendia brindes, e o brasileiro que trabalhava nela puxou conversa. Quando caiu no assunto de lutar para conseguir ir trabalhar lá, o assunto ficou mais genérico e virou lutar para conseguir qualquer coisa. Ele não acreditou quando eu disse que estava passando fome pra juntar dinheiro, assim como eu não acreditei quando ele falou que, aos 20 anos, conseguiu comprar um carro zero sem pedir ajuda de ninguém. A conversa durou quase uma hora, e por ela soube que ele já passou pelo que eu planejava passar. Falei para ele que a minha idéia era voltar pro Brasil e já sair de casa para conquistar minha tão sonhada independência, e que nada me faria mudar de idéia. Ele disse que pensava assim, mas que era perfeitamente independente morando na casa dos pais e que ainda tinha roupa lavada e comida na mesa. Nunca pensei em independência por esse aspecto, e isso me fez desencanar de chegar aqui e sair correndo de casa e de me matar pra juntar dinheiro para algo a longo prazo, como eu sempre fiz e continuava a fazer lá.
Como eu desisti disso, sobrou dinheiro. Pesquisei por meses preços de notebook, desde antes de viajar, e não encontrava pelo preço que queria. Num dia iluminado resolvi comprar um baratão e não tão bom e ir para Nova York! Porém, ninguém topava ir para lá do nada e dali a alguns dias, então eu teria de ir sozinho... eu tinha ido pros Estados Unidos até com blusa de frio para encarar a temperatura que poderia fazer lá. Não ir seria uma frustração muito grande.
Num outro dia iluminado, uma turista brasileira puxou conversa comigo e com outra lixeira/gari/faxineira brasileira. A conversa foi muito longa e muito boa porque a mulher costumava viajar muito. Ela já tinha ido para Nova York e eu falei dos meus planos. Ela me apoiou, independente de ir sozinho ou não. Eu já estava inclinado a não ir, mais uma vez fazendo planos de ir dali a x anos, mais uma vez pensando somente a longo prazo... Além disso, ela disse que tinha lutado contra o câncer por 10 anos, e há pouco tempo tinha vencido. Não que ela deva se tornar um guia espiritual por isso, mas ela sabia mais do que eu e me lembrou que eu não sei se vou estar vivo nem daqui a um minuto. Dali a alguns dias, eu estava quase clicando no OK para comprar minhas passagens para o dia seguinte para Nova York. Pensei por horas se deveria clicar naquele OK e, no último momento, minha prima, por MSN, falou "CLICA CLICA CLICA". Fiquei em pé, na frente do notebook do meu roomate, olhando para a tela, perdido. Eu tinha acabado de clicar. Saí correndo para fazer a mala, fui trabalhar, voltei à noite, tomei banho e fui embora, sozinho, para pegar o último ônibus do dia para o aeroporto, para dormir lá e pegar o primeiro vôo do dia seguinte.
Fiquei num albergue num quarto para 12 pessoas, entre elas dois franceses. Os dois foram muito gentis comigo. No dia que eu cheguei perguntaram se eu queria jogar pôquer, e eu recusei por estar cansado demais da viagem e de toda a adrenalina envolvida. Antes disso eu perguntei sobre alguns lugares de Nova York e um deles me deu um mapa tamanho família de lá. Ele disse que eles não precisariam mais dele. Mesmo assim, eles poderiam levar de recordação, mas como eu precisava eles me deram, e eu achei isso demais.
No meu último dia lá, voltando para o aeroporto para ir embora, entrou no ônibus uma família de brasileiros. Puxei conversa com eles, claro. Eles estavam indo para lá também porque não agüentavam mais o frio (naquele dia acho que chegou a -15 graus) e queriam antecipar a volta. Receberam a má notícia de que isso custaria quase 1000 dólares. Fiz a minha parte: recomendei vários lugares fechados para eles irem, dei uns cupons de desconto que eu tinha e... dei meu MetroCard. Isso é um cartão para utilizar o transporte público, e o meu era ilimitado por uma semana. Eu não precisaria mais dele. Mesmo assim, eu queria levar de recordação, mas eles precisavam...
O que eu aprendi nessa viagem veio da convivência com muitas pessoas, mas essas marcaram porque passaram uma vez por mim e eu nunca mais as vi. A mulher da montanha-russa eu também nunca mais vou ver, porque além de ela estar lá e eu estar aqui, eu não lembro tão bem da cara dela. O brasileiro eu vi mais algumas vezes e ele sempre me perguntava se eu estava comendo direito, mas a partir de agora é cada um no seu lado do Brasil, lutando. A turista que me motivou é carioca e viaja o mundo; se eu encontrá-la por aí, vou agradecer por aquilo. Os dois franceses foram embora do albergue no dia seguinte, e quem sabe eu os encontre num mochilão na Europa ou num outro albergue em algum lugar do mundo. E a família brasileira, eu espero que esteja bem, que tenha passado mais calor e passado uma boa ação para um turista perdido pra frente. Mesmo que eu nunca encontre de novo qualquer um deles, eu não vou esquecê-los por terem feito a diferença para mim, assim como talvez algum deles lembre do louco que viajou sozinho e sabia bastante do transporte público nova-iorquino, do brasileiro do albergue com cara de acabado e perdido, do lixeiro que queria conhecer Nova York, do cara que passava fome para ser independente ou do cast member que ficava falando pra levantar a mão.

06 dezembro 2008

Posts descritivos: trabalho.

Todo dia, durante o trabalho, eu gravo algumas situações pelas quais eu passo para postá-las no blog. Há duas semanas fazendo isso, porém, muitas delas são esquecidas, então resolvi postar logo e não deixar pra fazer um post do tipo "um mês aqui" (isso vai acontecer daqui a 3 dias).
Até agora eu não consegui avaliar, no geral, se eu gosto do meu trabalho. No primeiro dia foi normal, no segundo eu queria que tudo aquilo explodisse, e assim por diante. O pessoal que foi faxineiro/gari/lixeiro (ou Custodial, o nome oficial) nos anos anteriores disse que era um trabalho muito legal, mas que o treinamento era de querer matar quem falou que era legal. Tudo verdade. Nós aprendemos a limpar banheiro, vômito, sangue, a limpar as lixeiras, e tudo isso é muito nojento. O argumento dos veteranos para o trabalho ser legal é o de que, na verdade, não se faz nada, pois você anda pelo parque, fica conversando com as pessoas, fica com uma vassourinha e uma lixeirinha deixando tudo limpo... Tudo isso desde que o Custodial não trabalhe na Main Street do Magic Kingdom, área na qual eu tive a sorte de cair. É o lugar mais lotado da Disney toda; é a entrada do parque, então é a primeira e última impressão das pessoas; todas as paradas do parque passam ali, então as lixeiras entopem em segundos; o chão vive cheio de "arte" das criancinhas.
O meu primeiro dia foi legal porque não foi tão pesado, quando eu tinha dúvidas os veteranos me orientavam e eu fiz o que chamam de Magical Moment, um momento em que você consegue deixar uma pessoa muito feliz, maravilhada, etc. Nós somos orientados a nos oferecer para bater fotos para as pessoas (porque o que bateria a foto pode aparecer nela, e isso é mágico porque a família toda sai na foto, por exemplo). A primeira vez que eu fiz isso foi mágico não só para a pessoa, mas também para mim, porque era um casal mais velhinho e o cara ficou muito feliz quando eu me ofereci, disse "thank you" várias vezes, apertou minha mão e os dois me desejaram feliz natal. A foto ainda era na frente do castelo da Cinderela, o símbolo máximo da Disney toda, e na hora em que ele estava iluminado, mais bonito ainda.
O dia seguinte, em compensação, foi cão, porque eu fiquei na praça entre o castelo da Cinderela e a Main Street, muito lotada. Meu trabalho era manter as lixeiras vazias. Eu fiquei tão nervoso correndo com lixeira cheia vazia cheia vazia que os outros Custodials perguntavam "Are you OK?" ("Você está bem?") o tempo todo, e eu respondia "No". Nesse dia chegou a me passar pela cabeça uma possível volta adiantada para casa. Quando eu perguntava para eles, naquele dia mesmo, se eles gostavam do trabalho, eles me respondiam "You get used to it" ("Você se acostuma com isso"), isto é, o trabalho é ruim, mesmo. Pra piorar, enquanto eu esvaziava uma lixeira cheia até a boca, uma americana me fala "You don't have a pretty good job, huh?" ("Você não tem um trabalho muito bom, né?").
Os nossos instrumentos de trabalho também deixam nossa vida pior. O conteúdo de todas as lixeiras é levado para o Avac, um ultraaspirador de lixo. Tem vários espalhados pelo parque, cada um em uma sala. A sala tem um cheiro podre, com o qual eu achei que nunca fosse me acostumar. Dentro do Avac, então, o cheiro é muito mais concentrado. A gente vira o lixo lá dentro, torce pra não entupir, e lava a lixeira com um jato d'água. Na primeira vez que eu fui fazer isso, eu não sabia que era um jato, então fiquei com a cara na região acima da lixeira (pra ver se a sujeira saía). A água bateu nas paredes da lixeira, virou uma nuvem e veio na minha cara. Fiquei lá alguns segundos com a mangueira na mão, boca e olhos fechados, processando a meleca que tinha voado na minha cara. Depois de fazer isso, a água é jogada numa peneira, e essa água espirra em tudo. Meu roomate tem um par de tênis igual ao meu, e eu diferencio um do outro pela sujeira (o meu tem espirro de gordura). Um brasileiro falou que, depois de despejar o lixo no Avac, por alguns minutos ele anda pelo parque sem falar nada, porque se ele abrir a boca, vomita.
Vômito: já limpei dois. O primeiro era gigante, tipo almoço e janta. Aqui tem um produto, o Voban, que seca o bicho, aí é so varrer. Pelo menos foi isso que me disseram, porque deixei agir o tempo necessário e, na hora de varrer, embaixo ainda estava tudo melecado. Varri o que deu pra varrer, deixei daquele jeito mesmo, fui embora.
No treinamento, limpar banheiro parecia ser um presente dos managers (chefes) para nós. Limpei banheiro uma vez. Realmente não tem muita coisa pra fazer, só manter tudo limpo. O problema é depois que o parque fecha, que precisa dar uma geral, inclusive nos mictórios e privadas. Como nós usamos luvas, não é tão nojento, tirando a hora de limpar as privadas. Americano não gosta de gastar energia, só de comer. Por isso, nos banheiros tem sensor em tudo, inclusive na descarga, para que eles não apertem um botão sequer. Quando eu fui limpar o assento da privada, a droga da descarga disparou comigo agachado na frente dela limpando, e isso aconteceu várias vezes. As últimas eu já limpava em posição de largada de corrida: disparou pisquei dali. Uma brasileira em treinamento deu muito mais azar: de cara precisou limpar um número dois do CHÃO, e mais recentemente outra teve de limpar uma cabine que, segundo ela, tinha aquilo até na parede, em estado líquido.
Os custodials dos anos anteriores dizem que a interação com os guests é um dos melhores aspectos de ser custodial. Depende. Aqui é moda trocar pins (ou, em bom português, BROCHE). Cada um custa um olho da cara pelo que é. Os custodials devem andar com uma lanyard (um colar que é uma espécie de faixa) no pescoço com pelo menos 12 BROCHES. As pessoas vêm e trocam os BROCHES delas com o custodial. É bonitinho quando vem uma criancinha e fala "May I see your pins?" ("Posso ver seus BROCHES?"). Só que logo depois aparecem os pais da criança. Eles são as criaturas mais interesseiras do parque. Eu não vejo graça nenhuma em andar com um colar de BROCHES, mas tem gente que anda com vários, faz coleção, gasta muito dinheiro com essa idiotice. Como nós não podemos recusar uma troca, os pais acabam trocando no lugar da criança, sempre pelo BROCHE mais caro ou maior que eu tiver, e o filho que se f*da se ele quiser um BROCHEZINHO do Nemo ou da Sininho.
O que os custodials dos anos anteriores tinham na cabeça pra falar que esse trabalho é bom? OK, tem alguns pontos positivos. Esse é o único trabalho no qual anda-se pelo parque todo. Nós somos livres, desde que deixemos tudo limpo, e dependendo do lugar isso é fácil. Algumas vezes precisamos ficar com um Nextel para que o nosso chefe nos localize. Se algum amigo também está com Nextel, dá pra ficar batendo papo, e em português pouca gente entende. Minha área é a pior de todas para trabalhar, mas eu vejo todo dia o Wishes, um show de fogos de artifício que acontece atrás do castelo da Cinderela. É muito bonito e emociona muito, porque tem uma história sincronizada com os fogos. Eu vejo também o da festa especial que as pessoas pagam mais caro para entrar. Além disso tudo, eu gosto muito de andar, e meu trabalho exige que eu ande 6, 8 horas por dia pelas ruas do parque, que são muito bonitas.
A experiência mais intensa pela qual eu passei aqui foi uma união do lado bom de ser custodial com a do lado péssimo de trabalhar onde eu estou. Toda noite tem parada (a SpectroMagic) e nós vamos atrás dela com aspirador de pó e vassouras limpando tudo. Parece que nesse dia tinha gente importante no parque, e a coordenadora da parada queria mostrar que sabia fazer o serviço então fez muita pressão. Tinha chefe pra todo lado, fazendo pressão para que tudo estivesse limpo. Porém, tinha TANTA GENTE no parque que nós não conseguíamos espaço para varrer (e dizem que isso é só o começo). Não foi culpa nossa, mas eu fiquei muito, muito mal. Tivemos um break e, quando já estava acabando e eu estava voltando para a minha posição, começou o Wishes. Uma mulher me parou e perguntou se eu podia achar alguém que quisesse o balão dela. Esse balão custa uns 10 dólares. É de gás hélio, transparente e tem um balão de Mickey dentro. Eu fiquei com o balão, feliz que nem criança, e quis levá-lo comigo para limpar, mas não podia. Eu vi uma menina no colo do pai dela, ele vendo o Wishes e ela olhando para trás, segurando no pescoço dele. Eu cheguei com o balão e falei "It's for you!", e ela "Thank yooou!". Como estava todo mundo vendo o Wishes, ninguém viu a cena. Fui embora e fiquei olhando de longe. Ela ficou muito feliz. Ela mostrava o balão pro pai dela e apontava pra onde eu tinha ido. Depois ela mostrou pra família inteira dela e apontava pra onde eu tinha ido, mas não dava pra me ver por causa da multidão. Uma hora ela me achou e eu dei um tchauzinho pra ela, e ela me deu outro. Aquela pressão toda pra deixar tudo limpo, o "thank you", o tchauzinho, e ainda pra piorar o Wishes acontecendo na minha frente... dá um pouco e vergonha de escrever isso na Internet pra qualquer um ler, mas eu fiquei engolindo choro por um bom tempo. Aquilo fez valer todo o trabalho sujo.
Como os veteranos disseram, eu me acostumei com aquilo. Viro o lixo e não ligo se tem fralda suja, sanduíche meio comido, nem sinto mais o cheiro da sala do Avac. Eu não tenho nojo de mais nada e aprendi a limpar. Profissionalmente falando, esse trabalho não me servirá, mas pessoalmente, até agora, foi o que mais me fez crescer. Eu não recomendo esse trabalho para os próximos cast members, mas recomendo que todo mundo valorize o aparentemente reles faxineiro que nós sempre vemos por aí... e nem olhamos na cara.

27 novembro 2008

Posts descritivos.

Há muito tempo eu queria postar sobre aquiiilo, mas o acesso a computadores tem sido bem difícil e sequer uma caneta eu tinha para escrever um post. Agora eu tenho, então bora.
Quase que eu não vim. Fiz a entrevista no consulado para obter o visto num dia em que tentaram fraudar documentos, então passaram todos os entrevistados do dia num pente fino. Eu creio que isso tenha acontecido para enrolarem tanto para entregar meu passaporte. Mesmo. Eu estava com ele na mão faltando pouco mais de uma hora pra terminar o check-in para o vôo. Peguei carona com pessoas que também estavam correndo atrás de passaporte, na central dos Correios, na casa do cac*te, para o aeroporto. Nem voltei pra casa pra tomar banho, fiz minhas malas pelo telefone, entrei correndo literalmente no aeroporto, fiz check-in, abraço na família, tchau, embarque. O vôo durava 9h30 e eu não sabia porque tem uma diferença de 3 horas entre a região na qual eu estou e o horário de Brasília. "Peguei emprestado" um Dramin com uma mina pra "curtir" o vôo. Fiquei as 9h30 sentado, dormindo ou entrando na vibe dos americanos.
Quando chegamos em Atlanta (de modo turbulento), saí do avião e putz, estava mais frio do que eu já tinha sentido antes. O blazer que eu estava vestindo congelou inteiro por dentro. Pelo menos dentro do aeroporto era aquecido. E que aeroporto. Ele é tão grande que TEM UMA LINHA DE METRÔ DENTRO DELE, tipo, só pra ele. EU PEGUEI METRÔ pra ir de onde eu desembarquei pra onde eu faria conexão. E aquele lugar era tão... norte-americano. Guardinhas negões falando inglês, pessoas passando por mim falando inglês, TVs ligadas em canais em inglês, um time de basquete passou por nós, etc. Aquelas máquinas que no Brasil vendem barra de chocolate (ou que vendem livro, no metrô) vendiam fones de ouvido de 450 dólares e iPods. Enfim, outro mundo.
No avião para Orlando eu não estava drogado, então eu fiquei com mais medo. Na decolagem o avião ia pros lados. Aliás, ele estava cheio de pessoas que eram o estereótipo dos norte-americanos. Pelo menos metade deles estava com um BlackBerry. Um estava lendo um livro chamado "Built To Win". A aeromoça tinha cara de megera norte-americana. Todos eles pareciam o Al Gore ou a Martha Stewart. Infelizmente, nesse vôo foi que eu tive a sacação de que eu estava sozinho num país e que eu ficaria mais de 2 meses nele, e também foi aí que eu me senti a pessoa mais sozinha do mundo, achei que tinha dado um passo maior que a perna e que não ia conseguir. Pior ainda, essa sensação aumentou durante o dia.
O avião pousou com um tranco tão forte que um daqueles lugares acima da cabeça de guardar mala de mão escancarou-se. Fomos recebidos pela Disney e levados para o condomínio, e esse foi um dos momentos de choque cultural. A janela do ônibus parecia uma tela de cinema, não um vidro, porque tudo era MUITO norte-americano. Os carros, as rodovias, as placas em inglês, o rádio do ônibus, as pessoas. Mais tarde, quando fui eu e um roomate pro Wal-Mart, o choque foi maior ainda. O conteúdo das prateleiras é tão diferente, assim como os preços. Pelos corredores vão norte-americanos obesos mórbidos em carrinhos elétricos, muito mais hispânicos do que eu imaginava, e muito mais brasileiros, também, isso sem contar os da Disney. Tem muita, muita tranqueira à venda, e da boa. Eu comprei um pacote gigante de nachos e quase um quilo de molho de tomate com pedaços de outras coisas. Comprei aqui meu primeiro Haagen-Dazs, quase meio litro por 3 dólares. Um creme de barbear que no Brasil é 20 conto paguei US$ 2,50. Comprei outro dia 12 donuts por 4 dólares e dividi a conta com um cara do condomínio. 24 latas de Coca-Cola, 5 dólares. Em compensação, paguei 68 cents numa cebola, mais de um dólar numa alface, 5 dólares num adaptador de tomada, quase 7 dólares num Big Mac. Esse Big mac, em compensação, era num McDonald's open bar de refri, de café, de ketchup, mustard, hot mustard, barbecue e s+s, um molho meio doce. No meu último dia aqui eu vou pro Mc com uma garrafa de 2 litros pra encher de molho barbecue, porque é MUITO gostoso.
Voltando para o primeiro dia, chegamos no condomínio com a chave do nosso quarto na mão. Cheguei no meu quarto e já tinha dois roomates, os dois gente boa, brasileiros e paulistanos. Teve gente que caiu com 5 chineses ou 2 colombianos e outras combinações. Esse intercâmbio cultural é até legal, mas traz inconvenientes tão... inconvenientes que faz perder a graça, como uma mina que mora com chinesas porcas que deixam a cozinha fedendo depois de fazer as comidas tradicionais delas, o cara que caiu com 2 mexicanos que comem no McDonald's e deixam o pacote das coisas lá jogado no chão, etc. Aliás, todas as pessoas que eu conheci até agora e com quem eu fiz amizade são brasileiras. Encontrar brasileiro é tão legal =]! Andando na rua, quando dois brasileiros se ouvem conversando, na hora já puxa assunto um com o outro, e nos parques também. Todo mundo que trabalha na Disney tem uma nametag, um troço que vai no peito com o nosso nome e de onde nós somos, aí os brasileiros já vem superfelizes conversar com a gente.
Voltando pros roomates, o que chegou por último ficou menos de uma semana no quarto, mudou-se, entrou no lugar dele um que é primo de um que já estava aqui. Todos os meus roomates são limpos e organizados, grazadeus, porque a Disney passa uma inspeção agendada e outra aleatória nos quartos e se estiver sujo tem multa. Ontem eu derrubei bolo no carpete e fiquei morto de medo de sujar e nunca mais sair a mancha. O que eu fiz foi espalhar a mancha de modo que ela desaparecesse no carpete, e ficou perfeito!
Esse bolo, inclusive, foi o roomate primo do primeiro que fez de dia de Ação de Graças. By the way, nossa alimentação é um lixo. Meu pai pôs uns 30 Miojos na minha mala e isso me poupou de comer o lixo supremo que todos comem aqui, uma comida congelada chamada Michelinas. Dá desgosto de ver, mas é a coisa mais barata aqui, perto de 1 dólar. Tenho vivido de salada com muito, muito molho, Miojo, pão de fôrma com manteiga "roubada" do avião ou de qualquer lugar que seja "open" de sachê (quando vamos pra esses lugares enchemos o bolso de sachê de sal, açúcar, etc., pra não precisar gastar com isso) e de Centrum genérico (chama Equate). Comprei 300 cápsulas por 8 dólares, e por muitos dias isso foi meu café da manhã.
Falar em café da manhã me lembra dos meus horários insanos de trabalho, mas pra não esgotar o assunto, do trabalho eu falo no próximo post. Eu espero que toda essa narração da viagem seja não só divertido pra quando eu ler no futuro, mas útil pra quem quer ser cast member ou pra quem quer viajar pro exterior.
Hope you enjoy it. I miss everybody from Brazil, every little person.

Sincerely yours,
Arthur!