11 agosto 2020

Confiando nos outros.

 Acordei às 2 da manhã e olhei para o lado. Ele estava lá, dormindo profundamente. Tão perfeito que nem roncava, mesmo dormindo de barriga pra cima. Não que eu pudesse ver seus olhos, já que estavam fechados, mas ainda assim eu podia ver tranquilidade no olhar dele. Os músculos do rosto totalmente descontraídos, a respiração profunda e limpa.

Era nosso terceiro encontro e lá estava ele, dormindo na minha cama. Apesar de nenhum detalhe da cena sugerir isso, o que eu mais me perguntava era: como ele confiou em mim para vir dormir na minha cama se mal nos conhecemos?

Não confio em ninguém. Como eu mesmo o deixei vir dormir em casa? Uma parte dessa deixa foi o excesso de álcool, claro, tanto que acordei depois do sono leve de ébrio e estava ali, receoso, olhando para ele. Como ele confiou em mim e como veio para a minha casa, onde eu sabia onde estava cada objeto pontiagudo, cada chave para trancar cada porta, cada pano para tapar a boca dele?

Faz 10 anos que, todo ano, testo minha sorte dormindo em albergues a cada mochilão. Há alguns anos, voltando de um carnaval, estava no aeroporto com a amiga de uma amiga e o pai dela, que me perguntou como é possível sequer existirem albergues. É tão fácil para uma pessoa matar outra. Como isso não acontece? Respondi que as pessoas são melhores do que imaginamos, e que passei por um só apuro relacionado a roubo num albergue, nada relacionado a violência. Depois me perguntei mentalmente: como eu confio em até 20 pessoas no mesmo quarto, vindas de qualquer canto do planeta, sobre as quais não sei nada, e não em uma pessoa com a qual conversei 3 vezes por 2 horas cada?

Ano passado dividi um quarto de albergue com russos. Descobri que eram russos depois de mandar um áudio da conversa deles para um amigo russo, que me confirmou que eram seus conterrâneos. Neste caso, se estivessem arquitetando um plano para uma carnificina naquele quarto de albergue, eu não teria a menor ideia, já que não há palavra em russo que pareça com algo que conhecemos.

Há alguns anos trabalhei viajando muito, o que fazia com que fosse necessário, do meu ponto de vista, duas vezes por semana, entregar minha vida nas mãos de dois completos desconhecidos: o piloto e o co-piloto do avião. Nas primeiras viagens, achava que as pessoas, calmamente lendo em seus assentos, estavam num surto coletivo em que negavam quão entregues estavam nas mãos deles. O pai protetor nega que o futuro da sua família esteja nas mãos de outra pessoa. A pessoa que diz que aviões são seguros nega que o piloto possa estar num dia ruim, querendo se matar, e que por isso vai levar os 170 passageiros junto.

Imagino que não confiemos nos outros de modo consciente. Do contrário, analisando as possibilidades, seria difícil viver. Impossível andar na rua pensando que os motoristas de todos os carros passando a 1 metro de distância precisam continuar dirigindo do melhor modo possível ao invés de subir na calçada. Ou que todas as pessoas passando pela seção de itens para casa do mercado, cheia de facas afiadas, precisam ser sãs mentalmente para não pegar uma delas e fazerem o que quiserem.

Entendo que é preciso confiar "porque sim", porque as pessoas são melhores do que imaginamos, como falei para o pai da amiga da amiga, ainda que eu mesmo não acreditasse nisso. Por isso levei ele para casa. Mas era melhor não ter levado.

19 agosto 2011

Vivendo em Santiago.

A imagem que se tem de Santiago quando se mora em Sao Paulo é a de que se trata de uma cidade pequena. Porém, só de ver o mapa do metrô, que sequer cobre toda a cidade, se ve que é uma cidade muito extensa. Isso se deve principalmente ao custo de construir prédios aqui, que é muito caro já que são necessários sistemas que compensem tremores e terremotos. Por isso, ao contrário do que se vê do topo do Edifício Itália (um monte de prédio), quando se sobe até o topo do Cerro San Cristóbal, o ponto mais alto dentro da cidade, se vê uma cidade muito extensa e com poucos prédios, localizada numa espécie de vale, e cercada por todos os lados por cordilheiras. Inclusive, para ir para a praia há um túnel de alguns quilômetros que “fura” uma das montanhas da cordilheira. Por sinal, os Andes no inverno são uma vista incrível que se pode ter de qualquer lugar da cidade. Eles estão cheios de neve, e quando neva mais fica realmente bonito. Todos os dias eu tiro fotos deles.
Até agora, um mês e meio depois, eu vivi na bolha de Santiago que envolve o centro e dois ou três bairros mais próximos do centro. Tudo o que eu digo sobre a cidade é baseado nisso.
Santiago é uma cidade bonita e organizada. As calçadas são largas, com espaço para uma faixa para pedestres, outra para ciclistas e, entre elas, uma com árvores, isso em muitíssimas ruas. Agora as árvores estaão todas com aquelas folhas marrons, já que é inverno, o que dá um aspecto europeu à cidade.
Por sinal, o inverno aqui nao é tão forte quanto o europeu, mas se sofre muito mais. Eu já peguei dias com -2 graus, e dizem que no verao chega a 35. Somando-se o fato de que aqui a energia é cara, temos uma cidade com temperaturas extremas que nao está preparada para qualquer um dos extremos. A exceção óbvia está nos bairros mais ricos, que é onde estão as casas com calefacão. Mesmo assim, um gerente do trampo chegou reclamando esses dias falando que a conta de gás da casa dele veio mil dólares depois de colocar calefação.
Isso cria todo tipo de inconveniente que se pode imaginar. Eu durmo com 4 cobertores e vestindo uma blusa. Com tanto frio, trocar de roupa de manhã para ir trabalhar é o momento que estraga o dia todo. Já tentei trocar de roupa debaixo dos cobertores, dormir com a roupa que vou por no dia seguinte, trocar de roupa em cima da estufa (a estufa é um negócio que gera calor ou por energia elétrica ou por um botijao de gás), mas depois de meia hora e só conseguir colocar a calça, até a camisa 200% poliéster amassar, e quase queimar a roupa, respectivamente, vi que o jeito era encarar o frio.
Outro problema é para lavar roupa. Com tanto frio e a energia sendo cara, se lava a roupa, mas ela não seca. É preciso estendê-las perto de uma estufa e deixá-las ali por dias. Some-se a isso o fato de a máquina de lavar da casa na qual estou estar quebrada e temos que se leva duas semanas para lavar roupa. Semana retrasada fui para festas na sexta e no sábado à noite e estava morto demais para lembrar de dar minhas roupas para a mãe da casa lavar na casa da filha dela. Agora, duas semanas depois, estou com duas camisetas limpas, e só.
O caminho seria comprar mais roupas. Aqui tem uma comuna, a Patronato, que é o Bom Retiro de Santiago. Fui lá mas não comprei nada, porque eu nao sei o que é bom e o que nao é e a mina que foi comigo nao estava tão disposta a ajudar com algo além de “oh, tá barato”. Fui para o shopping. Mesmo assim, comprando roupa em outro país se perde todas as referências de marca que se tem, porque as marcas locais que são as melhores são outras. No fim das contas, ontem fui trabalhar com uma camisa emprestada de um amigo. Camisa, por sinal, amassada, já que não tem tábua de passar na minha casa, nem f*dendo eu vou gastar dinheiro com uma e, em quase dois meses, eu fui o único a tentar passar roupa porque energia aqui é cara e com o frio que faz se usa blusa por cima da camisa e ninguém vê os amassados.
Por fim, falando da parte boa, aqui há uma comuna, a Bellavista, que é a Vila Madalena e a Vila Olímpia juntas (não em tamanho, mas em variedade). Há muitas baladas de música eletrônica, igual a São Paulo, mas também há as de cumbia e de salsa. Cumbia é música brega com batida latina e que faz sucesso entre os jovens. Por sinal, aqui toca axé e funk de dez anos atrás, como a Dança do Vampiro e Tapinha Nao Dói, mas fale para um chileno que uma é axé e a outra funk que eles se surpreendem ao saber que há diferença entre os dois tipos.
Nessa mesma comuna há muitos bares, dos mais flaites (como se chama aqui um mano, ou alguma coisa vulgar) aos que chegam a cobrar mais de 8 reais (mais de 2 mil pesos chilenos) por uma garrafa de cerveja Cristal ou Escudo (as que bombam aqui). Pode-se andar pelas ruas da Bellavista à noite sem medo.
Concluindo, Santiago é uma cidade bonita, com jeitão europeu, grande, organizada. Mas como o maior choque cultural que tive foi no supermercado (assunto de outro post), acho que ela padece do mesmo mal de todas as cidades muito cosmopolitas: se tornam iguais umas às outras. Os mesmos bairros, “o plano geral da coisa”. Santiago é Sao Paulo em espanhol e com abacate. Que, por sinal, é assunto de outro post.

29 julho 2011

1 mês de Santiago.

Hoje faz um mês que estou em Santiago, e nunca postei sobre o que rola aqui. Eu poderia sair falando de todas as diferenças culturais em relação ao Brasil (que existem, são numerosas, mas não tão impactantes) neste post, mas não quero esgotar o tema.
Quando o avião acabou de pousar no aeroporto eu já tive um vislumbre de que as coisas aqui não eram tão diferentes. Ao longe, em algum ponto do aeroporto, estava o logo da Petrobras. Saindo do avião, a caminho da imigração, uma propaganda da Claro. Saindo do aeroporto, indo para onde eu ficaria por um dia, vi a noite em uma cidade bonita, com calçadas largas, algumas delas com espaço para ciclistas, mais arborizada - como um bairro nobre de São Paulo.
Até aquele momento eu falava portunhol. Tudo o que estudei por conta própria não era páreo para o espanhol chileno, que é rápido, com diversas expressões locais e ainda falado sem algumas letras. Na imigração, quando achei que teria que soltar o verbo, só falei um "gracias", porque o cara só me falou "hola" e "listo". No carro, fui falando mais, mas a cada três palavras pedindo pros caras que foram me buscar repetir o que diziam.
A noite era fria, e dentro da casa para a qual fui havia um aquecedor. A casa parecia estar num bairro de periferia, pois as ruas eram escuras, pequenas, e as casas humildes. Porém, no dia seguinte descobri que ficava ao lado de uma estação de metrô, e que há muitas estações de metrô em Santiago e que aquele bairro na verdade era um dos próximos do centro.
A casa na qual estava por aquele dia era uma na qual moravam 11 estrangeiros. No dia seguinte eu estava vendo televisão na sala com 2 americanos, 1 chileno e uma chinesa, e os outros colombianos, finlandeses e alemães já estavam no trabalho.
Eu conheci São Paulo andando, e queria fazer o mesmo aqui em Santiago. Porém, estava muito frio e chovendo, e eu não tinha um guarda-chuva (aqui, "paraguas"). Pus uma blusa impermeável e fui conhecer o metrô. Para isso comprei um Bip!, o Bilhete Único daqui.
E aquela foi a diversão do dia. À noite fui para a AIESEC, acompanhei um processo seletivo de novos membros, me usaram como exemplo do que é o trabalho da AIESEC e eu só respondia com acenos. Depois, me levaram para a casa na qual estou desde então, e fui recebido pela mãe da casa. Me mandou tomar banho e ficou conversando comigo enquanto eu comia a pratada de macarrão que ela me fez. Falava em espanhol devagar, porque já tem experiência em receber estrangeiros.
Fui dormir embaixo de 5 cobertores, e com tanto frio hibernei por quase 12 horas. Quando acordei, a mãe da casa me disse para ter cuidado ao andar por Santiago, porque havia um protesto estudantil. Saí correndo para ir ver o protesto, e tive meu primeiro contato com... gás lacrimogêneo. Comi um completo (um cachorro-quente com repolho, tomate picado e molho) e fui conhecer outros lugares.
Voltei para casa à noite e havia dois holandeses jantando com os pais da casa. A mãe me trouxe uma pratada de... carne. Como eu não havia dito que não gostava, me senti na obrigação de comer.
O dia seguinte foi o primeiro dia de trabalho. Teoricamente. Minha chefa disse que estava muito atarefada e não teria tempo de me receber. Me mandou ir tirar o visto. No fim das contas, fui ver Transformers com um casal (aqui ficar de vela é "tocar el violín"), legendado em espanhol. À noite, pisco (a cachaça daqui) em casa. Com dois copos já fiquei de fogo.
Três dias que resumiram boa parte do que eu veria no meu primeiro mês: mais carne, mais pisco, mais completo, mais gás lacrimogêneo...

06 março 2011

The end.

O fim do ano passado foi composto por vários fins. Foi uma festa da qual eu não poderia voltar para casa e comentar no dia seguinte tudo o que rolou, pois quase todas as pessoas passaram pela porta da saída para não serem mais vistas.
A faculdade acabou. Passaram-se 4 anos desde que eu entrei na USP, o que coincidentemente foi o primeiro assunto do blog, a vida acadêmica (como se eu soubesse o que era vida acadêmica naqueles tempos). Eu não me formei e vou continuar indo para a faculdade, mas eu não terei a minha sala. A balada da sexta-feira não será mais comentada na primeiríssima aula da segunda-feira, ou antes, no bandejão, porque sequer as mesmas pessoas terão ido para a balada. E isso já começou a acontecer. A discussão (nome mais bonito para fofoca) da festa de formatura ficou na Internet, no dia seguinte, em frases esparsas de até 140 caracteres. Infelizmente.
Em 2010 eu comecei a trabalhar de verdade e conheci mais pessoas e fiz mais amigos. Este ciclo, entretanto, foi mais breve. No fim do ano muitos já foram embora. Um dia, o último dia de uma pessoa que trabalhava comigo, rendeu uma imagem disso. Ela se despediu de mim, foi embora atravessar a avenida dela e eu a minha. Dei de cara com um farol vermelho, então me virei e fiquei olhando. Ela estava indo embora por aquela avenida que se estendia até além do horizonte. Fiquei olhando até ela sumir (ou até o farol ficar vermelho mais duas vezes), e vi exatamente mais uma pessoa indo embora do meu convívio.
Na segunda metade de 2010 morei fora de casa. O fim do ano foi o momento de voltar para casa por questões financeiras e práticas. Foi mais uma época na qual fiz mais amigos e vivi a melhor parte da vida, e foi mais um momento do qual me despedi da maneira mais imagética.
Fui levar um dos caras da república para o aeroporto. Ele iria para casa por um mês e voltaria para a república depois da minha saída. O fim do convívio com um grande amigo era ali. E no mesmo dia e hora eu buscaria outro cara, da AIESEC, no aeroporto.
Entramos no aeroporto, conversamos um pouco, nos despedimos e ele embarcou. Desta vez não tinha uma avenida infinita, mas ele indo embora pelo saguão lotado. (Com a mala gigante de viagem que me servira de criado-mudo nos últimos seis meses.)
Primeiro foram dezenas de pessoas da faculdade embora. Depois, alguns do trabalho. Agora mais um. Fiquei no portão de desembarque pensando em tudo isso. O que seria de mim em 2011? O que vinha depois desse fim de ano tão final?
A resposta desembarcou. Pessoas vem e vão, afinal, Arthur, como você pode ver neste aeroporto. Aí está uma outra pessoa que acabou de cruzar o seu caminho.

PS.: pena eu não ter escrito este post no fim do ano passado. Tentei entrar no mesmo clima para escrevê-lo artificialmente, aqui.

07 setembro 2010

Mau resolvimento.

Fiquei com uma parte da vida mal resolvida: a do intercâmbio.
Eu aproveitei muito menos do que deveria ter aproveitado. Fui a menos festas do que deveria, fiz menos amigos do que deveria, trabalhei mais, tirei menos fotos, fiz menos besteira. Pra variar, eu fiz as coisas mais cedo do que deveria ter feito. A Disney e os meus vinte anos de idade (este post serve até como balanço geral dos meus vinte anos) me fizeram levar a vida menos a sério, a pensar menos e a me divertir mais. Já ouvi várias vezes de várias pessoas que eu penso muito, hipotetizo muito antes de fazer alguma coisa. Já melhorei bastante neste aspecto nos últimos tempos, mas ainda tenho muito a melhorar.
Pior que eu conheço uma pessoa que também pensa demais, e ela é o modelo perfeito a não ser seguido, na minha opinião. É um cara muito inteligente, mas que parece ter medo de dar a cara a tapa. Com a minha idade não tem história pra contar. Foi à primeira festa da faculdade da sua vida no último ano do curso. Quando eu o encontrei no meio da festa, gritei "e aí, tá curtindo?" (prolongando bastante mais as vogais) e ele, ao invés de gritar qualquer coisa, teorizou com voz de quem está num café: "sim, essa sensação que dá a música alta, as pessoas dançando, dá uma sensação muito boa que anima muito", e etc. Enfim, ele realizou muito pouco na vida. Ficou lá, pensando, até quando fez.
Quando encontro alguém que também trabalhou na Disney dói, literalmente, de compartilhar as experiências. Vai além da DPD (depressão pós-Disney), como ex-cast members chamam. Agora que estou procurando intercâmbio para trabalhar na minha área fico pensando se aproveitá-lo bem substituiria essa sensação de incompletude. Mas não, não é a mesma coisa. A Disney tem lá seu marketing fantástico que, por si só, já amolece uns corações só de ver fotos de lá (no meu caso, só de ouvir músicas), e isso também chega em quem trabalha lá.
Quando eu achava que estava chegando ao ponto de esquecer e tocar a vida porque não há mais o que fazer, recebi um email falando de um programa de seis meses na Disney. Simples: é entrar nesse programa, fazer o que deveria ter feito e voltar não devendo mais nada para mim. Porém, é difícil parar a vida por meio ano com a justificativa de resolver isso.
Eu achava que tinha muito, e que jogar tudo para o alto seria loucura. Um dia minha chefa me disse que queria dar a volta ao mundo por um ano. Eu disse que queria fazer o mesmo, mas que era difícil largar tudo. Quando ela me perguntou o que eu tinha e eu disse "a faculdade, o estágio", ela riu.
Eu não tenho nada. Nós não temos nada, galera. Eu posso, sim, largar nada e ir embora, porque esse é o momento de fazer isso. Depois a vida começa.
Fui atrás do programa da Disney disposto a largar o início da procura do intercâmbio de trabalho na minha área, a faculdade, o estágio, tudo. A música de uma das paradas da Disney turbinou minha vontade. Eis que aparece um dos termos do programa: já estar formado.
Respirei aliviado (como sempre faço em todo fim de post). Não preciso pensar em superar isso agora. Melhor: tenho mais tempo para pensar se voltar é o melhor meio para seguir em frente sem arrependimentos. O que vocês acham?

15 agosto 2010

A bíblia do marketing.

Estava estudando quando apareceram duas mulheres, uma japonesa e a outra meio mistura de tudo. A primeira me deu boa noite e, quando achei que ela só pediria uma informação, sentou-se ao meu lado e desembestou a falar.
Eu, bonzinho que sou, ao invés de cortá-la, mesmo que educadamente, para continuar a estudar os conceitos de experimentos em marketing, fiquei ouvindo. Depois de algumas perguntas, como se eu estudava lá na FEA, ela começou o assunto que as motivara a falar comigo: religião.
Eu, bonzinho que sou, ao invés de cortá-la, mesmo que educadamente, por não ser religioso e nem ter planos de ser, fiquei ouvindo.
Pedi um cartão delas para passá-lo para uns amigos que mantinham um grupo de estudos religiosos na faculdade. A moça da descendência variada me deu um cartão todo amassado. Coloquei-o como marcador da página do livro que eu estava lendo.
Um dia fiquei de frequentar esse grupo por consideração a um dos integrantes. Calhou de ter uma prova no mesmo dia da reunião e de eu não ter o livro daquela matéria, um livrão. Fui até o grupo com a intenção de pedir aquele livro emprestado. Esse meu amigo disse "você veio se unir a nós, Arthur?", interrompendo o discurso de outro integrante que estava descrevendo um milagre que ele presenciara seguido de uma quase convulsão dele próprio! Eu disse "não, tem aquela prova... você não quer me emprestar a bíblia do marketing?" O da convulsão me pregou na cruz com os olhos.
A japonesa, sentada ao meu lado, falava da igreja da qual elas eram e me perguntou se eu frequentava alguma. Eu disse que não, mas que eu achava importante ter um lado espiritual.
Foi eu falar isso pra ela ficar semip*ta. Ficou uns dez minutos dizendo que não é que era importante, é que era necessário ter um lado espiritual e ir à igreja para ter a vida eterna, e não apenas essa nossa vida material, no sentido da carne e do capitalismo. Pensei em perguntar se, então, quem não vai à igreja não tem alma. Deixei a chance passar para ser agradável com elas, apesar do sermão da japa.
Os últimos minutos do sermão, aliás, foram críticos. Eu já estava nem aí para o respeito em relação à opinião delas e só reparava no vão que havia entre os dentes da japa e no hálito dela, que não era nem bom para ser agradável nem ruim para me fazer criar um meio de tapar o nariz discretamente. O sotaque dela, que antes me fez sentir ternura, agora era gozado. Ela falava que a bíblia blablabla e apontava para o meu livro de marketing, o que me fez ter um estalo e lembrar da cena da bíblia do marketing e da cara de raiva do fulano do milagre. Segurei forte a risada e a transformei num sorriso ingênuo.
Conferi as horas. Já era tarde o bastante para bandejar. Achei um vácuo no monólogo para concluir aquilo e ir embora. Na semana seguinte, devolvi o livro e o cartão deve ter ido junto. Minha educação de ouvir a mulher teve como melhor resultado todos nós apenas termos perdido tempo.

(Outro post favorável a menos educação no mundo.)

09 maio 2010

Brainstorm na vó

A primeira coisa que vi na cozinha foi a Coca-Cola Light Plus de 1,5 litro em cima da mesa. Dei oi pra todo mundo e sentei. Fiquei praticamente encarando a garrafa. O queixo apoiado nas mãos, os cotovelos apoiados na mesa, o corpo inclinado para frente.
A primeira coisa que percebi foi que a garrafa era pequena. Era de 1,5 litro, e não de 2 litros. Fiquei pensando se com isso a Coca queria cobrar mais caro pelas vitaminas e minerais embarcadas na Coca Cola Light "Plus", mas evitando cobrar um preço que fosse considerado alto demais. Esse alto demais pode ser diagnosticado por uma pesquisa de elasticidade da demanda, através da qual você pergunta mesmo para a pessoa se ela pagaria pelo produto com o preço x, com x+1, x+2, isso explicando de modo bem simples o teste. A de 2 litros com o premium que seria necessário cobrar pelo valor a mais desse tipo de Coca-Cola teria um preço alto demais, enquanto a de 1,5 litro com o tal premium poderia ter um preço aceitável. Talvez.
Fora isso, a embalagem, além de ser pequena, era mais fina. Isso deveria sugerir uma forma mais magra da pessoa que tomasse aquela Coca-Cola. Talvez.
Depois lembrei de quando ela foi lançada, que uma graduanda em nutrição falou que aquilo era um absurdo. Não lembro o porquê de ser um absurdo, mas acho que tinha a ver com o fato de propagandearem que ela tinha vitaminas e minerais sendo que você não se beneficiaria deles realmente consumindo aquela Coca-Cola. Algo assim.
Isso me fez lembrar do presidente da Nestlé falando que a estratégia deles seria lançar cada vez mais alimentos funcionais, que são esses com vitaminas, minerais, reguladores intestinais, etc., pois as pessoas querem ter uma alimentação mais saudável, além de, claro, os produtos tradicionais terem se tornado commodities em termos de preços (fora vilões da saúde) e os funcionais serem a nova fonte de lucros da indústria de alimentos. Por sua vez, essa lembrança me trouxe a de uma entrevista que ouvi na CBN com um médico sobre a Danone vender o Activia e algum outro produto x como remédios, o que é ilegal segundo a Anvisa. Não sei se foi nessa entrevista também que ouvi que porcarias para crianças que agora tem minerais, vitaminas, etc. são um absurdo, porque os pais das pobres coitadas vão dar aquilo para seus rebentos com paz de espírito sendo que a porcaria continua a fazer bastante mal.
Depois vi que a embalagem da Coca é azul. Eu acho estranho algum refrigerante ter embalagem azul, pois não é uma cor atrativa para bebidas.
Nisso meu primo perguntou para a minha mãe se ela já tinha provado aquela Coca. Como o assunto era a Coca, essa fala no meio de todas naquela cozinha me chamou a atenção. Ele disse que era muito boa, nem tinha gosto de adoçante, melhor que a Zero. Aí eu lembrei de mim mesmo, que não vejo a mais remota diferença no sabor da light, da zero, da normal. Aliás, a normal parece que tem o equivalente a 10 colheres de açúcar, e desde que me falaram isso eu nunca mais esqueci.
Daí lembrei de uma marca de cerveja que é vendida nos Estados Unidos, a Budweiser, que tinha a Bud Light. A latinha dela é completamente azul. Concluí que seria melhor estudar mais sobre cores de embalagens de bebida antes de achar que The Coke Company e Anheuser-Busch estão erradas e eu estou certo.
Minha mãe respondeu que nunca tinha provado aquela e que não tinha interesse em provar porque já adorava a Zero.
Lembrei do lançamento da Zero. Uma pesquisa constatou que os jovens achavam que refrigerante light era para velho, e a Zero foi lançada para eles. Acabou que a minha mãe, que consumia a Light sem problemas, passou a tomar apenas a Zero. Isso até hoje me intriga: será que ela toma a Zero para se sentir mais jovem? Ela nunca nem tocou no assunto do gosto ser melhor... O fato é que muito consumidor de light deve ter pensado o mesmo, porque elas sumiram das gôndolas. Será que a Coca previu essa canibalização?
Eu queria provar a Coca azul. Me deu na telha que ela devia ter gosto de baunilha. Porém, quando cheguei na casa da minha avó, tinham feito frango e o almoço estava no final. Todo mundo estava comendo o frango com a mão, arrancando gordura, pele, carne dos ossos dele na unha, entre familiares não precisa de etiqueta, então com certeza alguém teria aberto a tampa da Coca com a mão engordurada. Pelo menos meu primo de 13 anos teria feito isso. Eu não queria pegar na gordura do frango pra não ficar com a mão melecada e fedida, e para lavar a mão eu precisaria ir até o banheiro, do lado do quarto dos meus avós (no qual dormia meu avô naquele momento). Fora isso, no banheiro da casa deles sempre tem muito pouco sabonete, e aí eu só rasparia a ponta do dedo naquele restinho seco, já enxaguaria a mão mas continuaria com ela engordurada e fedida. Eu ficaria cheirando minha mão o tempo todo, pois eu tenho mania de cheirar as coisas.
Passei a buscar um meio de abrir a tampa sem tocar nela. Eu poderia usar a toalha vermelha xadrez da mesa, mas não tinha toalha suficiente para alcançar a altura da embalagem magra, pequena e azul da Coca. Eu poderia usar um papel toalha, mas o único à vista estava usado. Fiquei olhando, sem pensar em mais nada. Só olhando para a toalha pequena, a tampa possivelmente melecada, a Coca de baunilha dentro da garrafa. Fui acordado:
- Você fala muito, Arthur. Esse puxou o pai, não fala.
Sorri. Realmente, meu pai também pensa muito.

(2 meses, e quando vem é um negócio tão chato que eu nem consegui ler de novo para revisar...)

08 março 2010

Thriller.

Estava indo para casa num domingo à tarde quando sentou ao meu lado um senhor enorme de gordo. Além de tudo, mal educado. Quando eu olhei para o lado só vi uma bunda gigante se aproximando, e logo depois aquele peso todo em cima da minha coxa. Me ajeitei no 0,5 espaço que sobrou no banco para mim, sem que ele fizesse qualquer esforço para tornar a vida de quem não tem nada a ver com a obesidade dele mais fácil.
Ele começou a folhear um caderno. Dentro havia folhas sulfite com coisas meio estranhas. Eu não conseguia sequer identificar a língua na qual estavam escritas aquelas coisas. Ele lia como se analisasse o que estava escrito. E folheava lentamente. Em algumas folhas, caracteres japoneses. Em outra, "loira" e outra palavra que não identifiquei. Nas outras, as palavras inidentificáveis. Tudo isso eu olhava de rabo de olho, claro.
Dali a pouco ele tirou da mala um fone de ouvido enorme e velho como ele. O fone estava ligado num walkman também enorme e velho, daqueles com toca-fitas. Tudo ali era grande e velho. De repente, ele abre o walkman, e eis que o que ele tem na mão, ligado num fone, é uma câmera daquelas conhecidas como camcorder. Ele deu play no vídeo, e nesse momento eu estava quase rompendo meus nervos óticos de tanta força que fazia para fingir que estava olhando pela janela mas olhando para o lado oposto.
A tela inicialmente estava azul. Fiquei pensando no que tinha naquele vídeo. Cenas de tortura? Pedofilia? Vindo daquele senhor certamente era algo peculiar. O vídeo nunca começava. Ele olhava para a tela, e olhava para o caderno. Pegava a câmera na mão, voltava no colo. Uma hora desencanou, e voltou a folhear o caderno. E eu de olho naquela tela azul.
Do nada, e muito rapidamente, ele olhou para a janela. Eu fiz o mesmo por puro reflexo. Cinco segundos depois ele tirou o fone, e
- Oi. Você pode me dar uma informação?
Acenei positivamente.
- Você está sentindo o cheiro do meu perfume?
Eu poderia fazer um blog inteiro para descrever aquele momento. Psicopata, esquizofrênico, professor da FFLCH. Levei um segundo para responder. Um segundo no qual eu não soube o que fazer. Eu estava preso entre uma chapa de metal e vidro e duzentos quilos de pura ameaça e intimidação. Eu estava sentindo o cheiro de cada mL do perfume dele, parecia que ficaria grudado nas minhas narinas e na minha roupa, apertada contra a roupa dele pulverizada com aquele perfume.
- Não.
- Mas você não sentiu nem quando eu entrei no ônibus?
- Não.
- Obrigado.
Passei a olhar pela janela para não ver o inimigo, que nem criança brincando de esconde-esconde que põe a mão na cara achando que está escondida do perseguidor. Meus olhos estavam arregalados e eles não desarregalavam. Eu estava em estado de alerta.
Ele voltou a olhar para o caderno. O maldito caderno do qual eu até tinha me esquecido. A tela da câmera ainda estava azul. Ele começou a balbuciar alguma coisa, e quando eu virei os olhos para ele de novo entendi: ele estava ouvindo na câmera aula de alguma língua e repetindo o que deviam ser anotações dele.
Pedi licença para descer. Ele virou pouco para me dar passagem, talvez o máximo que pudesse. O fato é que tive de passar por cima dele para conseguir sair. Ele estava levando também um banquinho verde com ele, do qual também tive de me desviar.
Quando desci, não me atrevi a olhar para aquela janela com medo de ver posto em mim um olhar psicopático de um velho com fone de ouvido. Vi a janela indo embora. Respirei o ar fresco. Talvez ele estivesse esperando que eu descesse para ver o vídeo de tortura que ele estava apenas ouvindo... Ou não, era apenas uma aula de línguas. Mas aquele perfume...


(2 meses sem postar. E quando vem, é outra história de busão, a segunda deste blog. O prognóstico não é bom.)

26 dezembro 2009

Tradições de família.

O fim do ano me faz pensar em família. 19 fins de ano eu passei com a família, e neste que quis não passar com ela percebi que não tenho com quem passar. Achei que eu era o único órfão de fim de ano no mundo, mas vi que outras pessoas estão na mesma. (Isso eu não vi de um modo abstrato - foi pelo Twitter, mesmo.) Como se não bastasse o estado ruim no qual fiquei pensando que, fora a família, eu não tenho mais ninguém, a última crônica da Vejinha desse ano é sobre passar o Natal sozinho.
Pensei no que vai ser de mim quando não houver mais família, ou até se isso algum dia vai acontecer, porque minha família é gigante. Depois vi que não é o tamanho dela que conta, mas o quanto as nossas tradições duram. Há anos fazemos a ceia e o almoço de Natal na casa dos mesmos tios. Também tem a casa dos meus avós, que faz o papel de conectora da família ao longo do ano: é por ela que vemos uns aos outros, por onde correm as notícias de parentes distantes (e onde eles reaparecem), o único lugar que algumas partes anti-sociais da família frequentam. O dia em que essas duas tradições acabarem, a família se espalha, o meu fim de ano acaba e eu sou o próximo a escrever sobre como é passar o Natal sozinho comendo uma torta.
O almoço de hoje foi o maior exemplo em anos do poder de reunir a família que essa tradição tem. Apareceu tio e primo que não eram vistos há anos, que inclusive precisaram ser reapresentados a nós para que soubessem quem eram aquelas moças e aqueles garotões que eram pivetes da última vez que eles nos viram, e a família de uma tia que é daquelas que só (e muito mal) frequenta a casa dos meus avós.
Geralmente, nessas ceias, eu fico como um chato reparando nos pequenos constrangimentos que esses reencontros podem provocar. Na hora de rezar, os mais velhos o fazem enquanto os adolescentes seguram a risada naquela roda com todo mundo de mão dada. Na hora de pegar comida naquela mesa coberta por elas, pode aparecer ao seu lado com o mesmo propósito aquela tia com a qual você mal fala, mal cumprimentou quando chegou e com a qual você precisa puxar assunto porque você não pode sair da mesa sem abrir a boca, e toca falar da salada de grão de bico, elogiar a torta de padaria que a prima que não sabe cozinhar levou, etc.
Esse ano, em compensação, eu me diverti, e agora, algumas horas depois, lembro de tudo com saudade. Por ter ido com espírito um pouco melancólico, eu via as cenas de longe: a mesa dos avós na entrada, as mesas dos tios mais à frente, as mesas dos primos mais velhos com filhos pequenos, a mesa dos primos de vinte e poucos anos à beira da piscina e, nela, brincando, aqueles filhos pequenos simbolizando a nova geração da família. A tradição parece ser ameaçada pelo tempo, que apagará a casa dos avós e nos tirará da casa na qual os tios deveriam tomar os lugares da entrada (que também é saída), e nós irmos para longe da piscina. Eu espero que a tradição, ao invés de ceder ao tempo, se adapte ao seu curso inexorável e, principalmente, não deixe ninguém sozinho.

02 novembro 2009

Independência ou morte.

Fui falindo ao longo do ano e agora é oficial: fali. A primeira coisa que alguém que faliu de verdade vai fazer não vai ser postar no blog, certo. É que a minha falência é diferente. Minha família nunca vai falir (funcionário público na parada) e levamos uma vida boa, mas a minha fonte de renda acabou e, por orgulho, eu não peço dinheiro pros meus pais. Não conheço outra alma que faça o mesmo, mas isso não me faz crer que eu estou errado. Meu argumento: tenho 20 anos e acho que é idade mais que suficiente pra parar de depender do papai e da mamãe pra ir pra balada. 20 anos é idade mais que suficiente pra já estar no batente, e eu estar procurando batente pra bater não é argumento que me poupe da culpa de pegar dinheiro com os pais. Eles até querem me dar dinheiro quando me veem escolhendo comer em casa e não na faculdade pra economizar um real e noventa centavos, mas eu recuso.
Percebi quatro aspectos positivos desse estilo de vida compulsório:
- vivendo numa quase inércia eu quase não consumo e, portanto, quase não produzo lixo;
- passei a me entreter e me satisfazer com as pequenas coisas da vida que não envolvem uma compra;
- passei a entender melhor arte, pois tudo que é gratuito nessa cidade é alternativo (e quase tudo que é muito barato é ruim, como os filmes que passam na sessão das 15h do Cinemark, então vale mais a pena ainda o que é gratuito) e alternativo é arte, e fica chato não concluir algo daquilo;
- parei de fazer negócios ruins, pois sempre busco o melhor custo-benefício nem que isso leve meses.
Logo, estou vivendo uma alternativa ao capitalismo e encontrei a solução para a poluição do meio ambiente, e eis um exemplo do como fazê-lo: vá num sábado à tarde para a Vergueiro ler revista de graça, depois vá para a sessão gratuita de um filme russo lá mesmo, dê uma volta pela Paulista e arredores (e use o banheiro do Pátio Paulista, se precisar, tomando cuidado com o público que o frequenta - pelo que está escrito nas paredes, parece que o pessoal vai lá pra acabar com outras necessidades que não o número 1 ou 2) e termine o roteiro passando na Cultura para ver, e não mais que ver, os livros que estão naquelas estantes centrais. Volte pra casa exausto de tanto andar e vá dormir sem nem lembrar do que está perdendo no sábado à noite.
Foi aí que comecei a perceber que meu orgulho mais prejudica que conforta. Apesar de salvar o mundo, num determinado momento é preciso se colocar à frente dos outros e, ao pensar assim, vi como estou perdendo oportunidades. Amigos meus estão fazendo cursos e enchendo o currículo, enquanto eu faço o mesmo pela Internet informalmente e com um material menos organizado. Perco chances de conhecer pessoas novas por não estar num ambiente no qual isso é mais propício. Deixo de me divertir mais, como ao não fazer coisas que, apesar de caras, valem cada centavo. Essa economia chega a me prejudicar num sentido bem prático, como quando me recuso a xerocar alguma leitura da faculdade e vou atrás do livro do qual a xerox veio (o que leva muito tempo), quando me recuso a pagar o preço absurdo que cobram por um livro que é legal, e até ao alimentar um estilo de vida meio contrário ao que eu aprendo a alimentar na faculdade (o que, em longo prazo, pode me deixar desempregado). E quando eu achava que essas eram as únicas possibilidades de me prejudicar, vi que estava extrapolando essa economia pra tudo, desde não usando faca pra comer pra economizar talher até tirando foto com menos megapixels pra ocupar menos espaço no HD.
Não acho que economizar seja ruim. Não usar faca economiza sabão e enche menos rio de espuma. Preferir pegar livro emprestado a tirar xerox ou comprar um economiza árvore. Sabendo que eu nunca vou imprimir minhas fotos em tamanho pôster, não preciso de resolução máxima. Mesmo assim, pelo que eu perco por não aceitar os recursos de outras pessoas, concluo que o que era simples vontade de ser independente se transformou em um estilo bizarro.

19 outubro 2009

Parabéns pelo seu dia.

Tirei essa foto na estrada no dia do meu aniversário (também o dia do médico, mas fingi que não li o "18 de outubro - dia do médico" no letreiro). Depois de achar graça da Autoban me dando feliz aniversário, vi o quanto esse momento pode ser motivacional (antes de continuar, saiba que este post tem a tag 'filosofia de bairro'). No final do dia, perto de anoitecer (como na foto), quando se está geralmente cansado por causa do trabalho e os problemas povoam nossa mente, aparece um letreiro nos parabenizando pelo nosso dia. A luz dele está meio apagada (o cansaço), mas ainda existe. Demos o nosso melhor e estamos vivos, afinal.

E a vida/estrada continua.

(Já é meu papel de parede, mesmo a foto estando mal enquadrada por ter sido tirada de repente. Eu vou me envergonhar em breve deste post)

05 setembro 2009

Um sujeito bem estranho, segurando um monte de sacolas, sentou-se ao meu lado. Estava com ar de quem tem mil coisas pra fazer. Tirou de uma das sacolas um pote com nozes e começou a comê-las, com ar impaciente, mas delicado. De vez em quando dava uns suspiros. Dali a pouco ajeitou tudo, levantou e, no banco que ocupava, ficou um papel de cor amarelo-post-it. Bati o olho nele e vi escrito "Poesia solta - Amigo inusitado". Saquei que ele tinha deixado o papel ali de propósito, afinal a poesia era solta, e o amigo, inusitado.
Aquilo para mim era o máximo: eu já tinha ouvido falar em bookcrossing, mas não achava que aquilo existia de fato, muito menos que o "crossing" já não se limitava a "book".
Fiquei esperando que ele fosse embora para começar a ler. Eis que um cara no banco da frente olhou para trás. Viu o papel amarelo-post-it contrastando com o banco cinzento. Virou-se para frente lentamente, como se estivesse pensando. Olhou para o papel de novo e acabou com tudo:
- Ei, você. Esqueceu esse papel?
O sujeito hesitou, acabou dizendo que sim. Guardou a poesia solta numa das sacolas, resmungou alguma coisa e foi embora. Guardei a curiosidade com o amigo inusitado, resmunguei pra quê tanta educação e fui embora.

31 julho 2009

A cena.

Apesar de ter muita coisa pra fazer, lá estava eu andando pela Paulista. O clima frio, as pessoas passando por mim, meu olhar contemplando tudo. Parei para descansar num lugar a salvo do vento, tirei um livro da mochila. Logo apareceu uma senhora. Me chamou e disse que estava com frio, e que não tinha como pagar um café para se aquecer. Eu disse que, infelizmente, também não tinha como pagar um café, nem para mim... Silêncio. Ela disse que trabalhava em igreja, e me perguntou de qual santo eu era devoto. Respondi que não sabia como escolher um santo para ser devoto. Ela perguntou se eu queria um santinho. Agradeci e respondi que não queria, e perguntei como eu escolhia um santo. Ela não respondeu; escolheu um para mim, me deu, se despediu e foi embora.
OK, agora a cena como aconteceu de verdade.
Eu estava na Vergueiro e precisava ir até o final da Paulista pegar um livro, sendo que estava um frio do cão e chovendo. Fiz esse caminho a pé pra não pagar ônibus, muito menos metrô. O clima superfrio, as pessoas passando azuis por mim, meus olhos congelando. Finalmente cheguei no meu destino e entrei correndo no Conjunto Nacional. Fiquei embaçando na Cultura até cansar, e com todos os pufes ocupados por gente lendo de graça, resolvi procurar um banco do lado de fora pra descansar. O único disponível ficava num corredor de vento. Tirei um livro chato da mala pra esquecer do frio, e eis que aparece uma "melhor idade" cheia de sacola, tirando as sandálias e espremendo as meias. Só fiquei esperando. Levou pouco tempo para ela começar a narrar suas desgraças e, no final, pedir dinheiro para um café. Falei que estava cansado de ser assaltado (fui uma vez) e, por isso, não andava mais com dinheiro. Como ela ficou muda, eu não sabia se podia voltar à minha leitura, então ficou aquele climão por alguns momentos até eu resolver ler - e claro, foi só recomeçar pra ela falar alguma coisa. Disse que trabalhava em igreja, e eu pensei "só falta ser tipo testemunha de jeová" (errei). Eu disse que não era devoto de nenhum santo, e que escolhi um para ser na catequese, e peguei o que era do dia do meu aniversário. Ela perguntou se eu não queria um santinho, e como se me conhecesse há anos, disse "é de graça". Apesar de insistir em não querer, ela me deu um da nossa senhora. Nossa Senhora da Cabeça.

Nossa Senhora da Cabeça. De onde surgiu isso?

Comecei a ler o santinho, tentando achar alguma justificativa para a existência de uma imagem santa segurando uma cabeça sem corpo, e até tinha. Depois de ler tudo, achei que deveria continuar demonstrando interesse, já que era de graça, e fingi que ainda estava lendo, mas a situação começou a ficar insustentável. Disse obrigado e comecei a me ajeitar pra cair fora, mas ela disse "tchau pra você" e caiu fora antes, provavelmente buscando um outro banco no qual tivesse mais sorte. Ainda saiu mancando para dar o toque dramático.
Nossa conversa foi bem amena, na verdade. Abusei de eufemismos e tentei puxar conversa, até, como ao perguntar como se escolhe um santo, para evitar climão e por um motivo constrangedor: para tentar fazer aquilo virar uma... cena. Gosto de ver momentos como cenas. Andar na rua ouvindo música com fones isoladores de som, por exemplo, só não vira uma cena de filme perfeita porque tudo não se passa em câmera lenta. Como se não bastasse, numa mania estranha, fico tentando tirar filosofias, significados de qualquer coisa. Aquela mulher que eu nunca vi e nunca mais devo ver foi a chance de originar uma miríade de filosofias de bairro das quais tenho vergonha de ter pensado, e pior, de colocá-las numa "cena". Muito pior, num "filme". Sim, nunca serei roteirista.

25 junho 2009

Sou viciado em notícias. Canais de notícias, pequenos noticiários, portais de notícias. Eis que, vendo um jornal local, o apresentador fala, no final, que no jornal seguinte, de âmbito nacional, seriam dadas mais informações sobre o estado de saúde do Michael Jackson. Não estava sabendo disso, e liguei direto na Band News, um dos meus canais preferidos por ser de notícias e por ter várias faixas de informação passando ao mesmo tempo, com as mais importantes circulando numa berrante faixa vermelha. Uma imagem de helicóptero mostrava o hospital no qual ele está internado, e dizia-se a cada minuto, com o cuidado de trocar as palavras a cada intervalo desses para não cansar o telespectador, que uns diziam que ele estava em coma, outros que ele estava morto. Fiquei hipnotizado por alguns minutos até começar a pensar sobre o porquê de estar vendo aquilo. Não tem utilidade saber que o Michael Jackson está morrendo. Eu nem gosto dele. Pus na Globo News, meu segundo canal preferido de notícias porque, apesar de não ter uma faixa com as notícias mais sensacionais em vermelho, eu sei a hora em que o jornal começa (a cada hora redonda). Dou de cara com a mesma imagem de helicóptero do hospital no qual ele estava. Fiquei meio apreensivo. Pus nesse canal para testar a popularidade da notícia, mas não esperava encontrar até a mesma imagem. Pus na CNN, que só não é meu canal preferido de notícias porque os âncoras não facilitam no inglês para estrangeiros. Surpresa: a mesma imagem de helicóptero do hospital no qual Michael Jackson está, com um âncora falando as mesmas informações dos canais anteriores, mas intercaladas com algumas expressões de surpresa, além de uma grande faixa amarela escrito "Breaking News", uma faixa preta falando que ele provavelmente está morto (mas que nada está confirmado pela CNN), e uma outra faixa dando detalhes como o remédio dado a ele pelos médicos. Dada a amplitude da notícia, pus na Fox News, canal norte-americano que não se propõe a ser internacional, mas sim a ser sensacionalista. A imagem estava dividida entre o âncora falando as mesmas informações dos canais anteriores e imagens de arquivo do Michael Jackson. Não acreditei na amplitude de uma notícia que eu não acredito ser tão, tão importante. Como último recurso, já tentando fugir dessa notícia sentindo uma espécie de medo, pus na BBC World News, canal local reservado a notícias européias. A mesma imagem de helicóptero de quase todos os canais anteriores revelou-se na tela, com uma faixa vermelha noticiando a morte de Michael Jackson. Lembrei da Record News e fui direto para ela, com o medo aumentando. A imagem de helicóptero.
Minha irmã chegou em casa falando ao abrir a porta "O Michael Jackson morreu! Não acredito! Põe no Multishow que tão passando todos os clipes dele!" Pus, e dei de cara com o final de Thriller, no qual o Michael Jackson está com olhos verdes brilhantes, como os de um monstro, com a tela se aproximando de sua cara enquanto uma risada diabólica envolve a cena.
Minha nascente posição crítica sobre a notícia transformou-se em medo. A última vez que vi algo do tipo acontecer foi nos atentados de 11 de setembro, que exerceram o impacto que exerceram. Tenho medo do que possa acontecer depois da morte de Michael Jackson.

(Devolvi na CNN. Uma mulher na porta do hospital diz para o repórter "Estou tão triste... ele criou o moonwalk, é devastador", e chora.)

07 junho 2009

Capítulo XXIX: o Imperador.

Fui comprar uma blusa. A que eu queria não tinha no meu tamanho. Enquanto eu esperava um funcionário procurar a G no estoque, imaginei uma situação toda. Como ele achou, esqueci tudo. Cheguei no caixa. Ouvi "Vamos fazer um cartão da loja, senhor?", e isso me subiu o sangue.
Há um tempo resolvi fazer esse cartão para ter descontos na compra. Para fazê-lo, era preciso ter pelo menos o RG, e nem com isso eu estava. Doida que estava a vendedora pensando em sua comissão, aceitou a carteirinha da faculdade para começar o processo. Ela disse para mim e depois ficou repetindo para si mesma, "Eles precisam abrir uma exceção...". Me passaram para mãos mais burocráticas. Depois de um olé de mais de uma hora, recebi a notícia de que meu crédito não tinha sido aprovado, e que eu poderia tentar novamente só depois de um mês. Saí da loja dando juras de desamor a ela, juras de nunca mais voltar. E lá estava eu na boca do caixa. Voltei.
"Não, vocês já me recusaram crédito uma vez", respondi, com esperanças de ter vencido a ambição da moça. Ela perguntou "Mas há quanto tempo isso aconteceu?", e fez uma cara analítica e confiante. Analítica porque a minha resposta era o x de uma equação que ela já tinha pronta na mente, e confiante porque ela sabia resolvê-la. Ao invés de dizer o x, já respondi a equação toda: "olha, foi há mais de um mês, mas eu não quero saber desse cartão, vocês terem recusado crédito foi uma humilhação pra mim". "Moço..." Paguei, disse obrigado para a caixa que não tinha a ver com a situação, fui embora nervoso. Por causa disso, a tal "situação toda" imaginada voltou, e maior.
O funcionário chegou e disse "Não tem G". Eu disse "Quero falar com o seu gerente". Aí já estava eu falando para o gerente "Como vocês podem só pôr blusa M na loja? Vocês querem perder essa compra? E vocês devem ter um lucro enorme com essa blusa, 80 reais?, deve ser uns 20 para fabricá-la, é época de frio, essa marca só é distribuída por vocês, senão eu já estava fora daqui, só o monopólio pra fazer uma loja manter um atendimento desses". Ele descaradamente perguntou "E o que você quer que eu faça?", e eu "Eu tenho cara de consultoria? Se você quer que eu te ajude me contrata!", e depois que eu falei onde estudava e meu curso, ele me contratou. Saí ligando para pessoas radiante, "Arranjei estágio do jeito mais louco possível!", e de repente caí na real. Eu estava me sentindo feliz de verdade, como se tudo isso tivesse acontecido, sendo que eu estava era dentro dum busão, segurando uma sacola com uma blusa G dentro, tão ali quanto cada pessoa ali.
Isso vive acontecendo comigo, e não sei o que isso significa. Eu vejo algo acontecendo e imagino n situações decorrendo daquilo, paranoicamente. Nessas eu já me imaginei, por exemplo, sendo morto a tiros, queimado, esmagado, degolado; matando várias pessoas de diversos modos, desde soltando a mão dela na beira de um precipício, até metendo um carro que eu dirigia num obstáculo qualquer para o passageiro voar; sendo assaltado, e reagindo de diversas maneiras, às vezes morrendo, às vezes sendo ferido e levado pro hospital, às vezes me dando bem; tendo coragem de falar o que eu penso e obtendo a resposta que vai me garantir felicidade pela vida inteira (ilusão dentro de ilusão); morando no meu AP dos sonhos; sendo bem-sucedido no trabalho; et cetera. São coisas terríveis e maravilhosas.
Não sei bem o que concluir desses "momentos". Porém, encontrei uma explicação simples do porquê de isso acontecer: "Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus." Eu sou normal, o problema é o tal recanto. Ou pelo menos não sou louco sozinho.

24 maio 2009

"Não há realidade feliz que valha a décima parte de um sonho bom."
- Humberto de Campos, A mosca azul

Temo que isso seja verdade.

24 fevereiro 2009

Encontros.

A vida boa de trabalhar na Disney é ter entrada gratuita em todos os parques. Quando não se tinha nada pra fazer, o negócio era ir pra um parque e se divertir, na medida do possível (já que a Disney é para crianças) até a hora do trabalho. Pouca gente fazia isso. Numa das vezes que eu fiz, fui em uma montanha-russa com uma mulher que eu não conhecia. Logo que o carrinho andou eu levantei as mãos e ela ficou segurando. Como cast member simpaticão eu puxei assunto e falei pra ela levantar a mão, e ela "não, eu tenho medo!" (em inglês, ela era americana). Eu fiquei insistindo e, numa queda pequena, ela levantou. Eu fiquei falando que não precisava ter medo e fiquei felizão, com os braços levantados, pra "dar exemplo". Numa hora que o carrinho volta de costas eu fiquei cantando pra ela levantar os braços, e ela conseguiu! Quando chegou a hora da maior queda, no começo da qual eles batem uma foto, eu gritei pra ela não ter medo e levantar os braços. E eis que saí na foto com os braços levantados e ela com a boca enorme de aberta gritando e com os braços levantados, mas um deles segurando no meu pulso! Ela ficou falando pros dois do carrinho da frente que ela conhecia, "eu fiz um amigo pra vida inteira!", e não abaixou mais os braços.
Trabalhando também é possível fazer esses amigos pra vida inteira. Quando cast members brasileiros passavam um pelo outro, sempre rolava uma conversinha ou um cumprimento. Numa noite eu estava trabalhando perto de uma tenda que vendia brindes, e o brasileiro que trabalhava nela puxou conversa. Quando caiu no assunto de lutar para conseguir ir trabalhar lá, o assunto ficou mais genérico e virou lutar para conseguir qualquer coisa. Ele não acreditou quando eu disse que estava passando fome pra juntar dinheiro, assim como eu não acreditei quando ele falou que, aos 20 anos, conseguiu comprar um carro zero sem pedir ajuda de ninguém. A conversa durou quase uma hora, e por ela soube que ele já passou pelo que eu planejava passar. Falei para ele que a minha idéia era voltar pro Brasil e já sair de casa para conquistar minha tão sonhada independência, e que nada me faria mudar de idéia. Ele disse que pensava assim, mas que era perfeitamente independente morando na casa dos pais e que ainda tinha roupa lavada e comida na mesa. Nunca pensei em independência por esse aspecto, e isso me fez desencanar de chegar aqui e sair correndo de casa e de me matar pra juntar dinheiro para algo a longo prazo, como eu sempre fiz e continuava a fazer lá.
Como eu desisti disso, sobrou dinheiro. Pesquisei por meses preços de notebook, desde antes de viajar, e não encontrava pelo preço que queria. Num dia iluminado resolvi comprar um baratão e não tão bom e ir para Nova York! Porém, ninguém topava ir para lá do nada e dali a alguns dias, então eu teria de ir sozinho... eu tinha ido pros Estados Unidos até com blusa de frio para encarar a temperatura que poderia fazer lá. Não ir seria uma frustração muito grande.
Num outro dia iluminado, uma turista brasileira puxou conversa comigo e com outra lixeira/gari/faxineira brasileira. A conversa foi muito longa e muito boa porque a mulher costumava viajar muito. Ela já tinha ido para Nova York e eu falei dos meus planos. Ela me apoiou, independente de ir sozinho ou não. Eu já estava inclinado a não ir, mais uma vez fazendo planos de ir dali a x anos, mais uma vez pensando somente a longo prazo... Além disso, ela disse que tinha lutado contra o câncer por 10 anos, e há pouco tempo tinha vencido. Não que ela deva se tornar um guia espiritual por isso, mas ela sabia mais do que eu e me lembrou que eu não sei se vou estar vivo nem daqui a um minuto. Dali a alguns dias, eu estava quase clicando no OK para comprar minhas passagens para o dia seguinte para Nova York. Pensei por horas se deveria clicar naquele OK e, no último momento, minha prima, por MSN, falou "CLICA CLICA CLICA". Fiquei em pé, na frente do notebook do meu roomate, olhando para a tela, perdido. Eu tinha acabado de clicar. Saí correndo para fazer a mala, fui trabalhar, voltei à noite, tomei banho e fui embora, sozinho, para pegar o último ônibus do dia para o aeroporto, para dormir lá e pegar o primeiro vôo do dia seguinte.
Fiquei num albergue num quarto para 12 pessoas, entre elas dois franceses. Os dois foram muito gentis comigo. No dia que eu cheguei perguntaram se eu queria jogar pôquer, e eu recusei por estar cansado demais da viagem e de toda a adrenalina envolvida. Antes disso eu perguntei sobre alguns lugares de Nova York e um deles me deu um mapa tamanho família de lá. Ele disse que eles não precisariam mais dele. Mesmo assim, eles poderiam levar de recordação, mas como eu precisava eles me deram, e eu achei isso demais.
No meu último dia lá, voltando para o aeroporto para ir embora, entrou no ônibus uma família de brasileiros. Puxei conversa com eles, claro. Eles estavam indo para lá também porque não agüentavam mais o frio (naquele dia acho que chegou a -15 graus) e queriam antecipar a volta. Receberam a má notícia de que isso custaria quase 1000 dólares. Fiz a minha parte: recomendei vários lugares fechados para eles irem, dei uns cupons de desconto que eu tinha e... dei meu MetroCard. Isso é um cartão para utilizar o transporte público, e o meu era ilimitado por uma semana. Eu não precisaria mais dele. Mesmo assim, eu queria levar de recordação, mas eles precisavam...
O que eu aprendi nessa viagem veio da convivência com muitas pessoas, mas essas marcaram porque passaram uma vez por mim e eu nunca mais as vi. A mulher da montanha-russa eu também nunca mais vou ver, porque além de ela estar lá e eu estar aqui, eu não lembro tão bem da cara dela. O brasileiro eu vi mais algumas vezes e ele sempre me perguntava se eu estava comendo direito, mas a partir de agora é cada um no seu lado do Brasil, lutando. A turista que me motivou é carioca e viaja o mundo; se eu encontrá-la por aí, vou agradecer por aquilo. Os dois franceses foram embora do albergue no dia seguinte, e quem sabe eu os encontre num mochilão na Europa ou num outro albergue em algum lugar do mundo. E a família brasileira, eu espero que esteja bem, que tenha passado mais calor e passado uma boa ação para um turista perdido pra frente. Mesmo que eu nunca encontre de novo qualquer um deles, eu não vou esquecê-los por terem feito a diferença para mim, assim como talvez algum deles lembre do louco que viajou sozinho e sabia bastante do transporte público nova-iorquino, do brasileiro do albergue com cara de acabado e perdido, do lixeiro que queria conhecer Nova York, do cara que passava fome para ser independente ou do cast member que ficava falando pra levantar a mão.

06 dezembro 2008

Posts descritivos: trabalho.

Todo dia, durante o trabalho, eu gravo algumas situações pelas quais eu passo para postá-las no blog. Há duas semanas fazendo isso, porém, muitas delas são esquecidas, então resolvi postar logo e não deixar pra fazer um post do tipo "um mês aqui" (isso vai acontecer daqui a 3 dias).
Até agora eu não consegui avaliar, no geral, se eu gosto do meu trabalho. No primeiro dia foi normal, no segundo eu queria que tudo aquilo explodisse, e assim por diante. O pessoal que foi faxineiro/gari/lixeiro (ou Custodial, o nome oficial) nos anos anteriores disse que era um trabalho muito legal, mas que o treinamento era de querer matar quem falou que era legal. Tudo verdade. Nós aprendemos a limpar banheiro, vômito, sangue, a limpar as lixeiras, e tudo isso é muito nojento. O argumento dos veteranos para o trabalho ser legal é o de que, na verdade, não se faz nada, pois você anda pelo parque, fica conversando com as pessoas, fica com uma vassourinha e uma lixeirinha deixando tudo limpo... Tudo isso desde que o Custodial não trabalhe na Main Street do Magic Kingdom, área na qual eu tive a sorte de cair. É o lugar mais lotado da Disney toda; é a entrada do parque, então é a primeira e última impressão das pessoas; todas as paradas do parque passam ali, então as lixeiras entopem em segundos; o chão vive cheio de "arte" das criancinhas.
O meu primeiro dia foi legal porque não foi tão pesado, quando eu tinha dúvidas os veteranos me orientavam e eu fiz o que chamam de Magical Moment, um momento em que você consegue deixar uma pessoa muito feliz, maravilhada, etc. Nós somos orientados a nos oferecer para bater fotos para as pessoas (porque o que bateria a foto pode aparecer nela, e isso é mágico porque a família toda sai na foto, por exemplo). A primeira vez que eu fiz isso foi mágico não só para a pessoa, mas também para mim, porque era um casal mais velhinho e o cara ficou muito feliz quando eu me ofereci, disse "thank you" várias vezes, apertou minha mão e os dois me desejaram feliz natal. A foto ainda era na frente do castelo da Cinderela, o símbolo máximo da Disney toda, e na hora em que ele estava iluminado, mais bonito ainda.
O dia seguinte, em compensação, foi cão, porque eu fiquei na praça entre o castelo da Cinderela e a Main Street, muito lotada. Meu trabalho era manter as lixeiras vazias. Eu fiquei tão nervoso correndo com lixeira cheia vazia cheia vazia que os outros Custodials perguntavam "Are you OK?" ("Você está bem?") o tempo todo, e eu respondia "No". Nesse dia chegou a me passar pela cabeça uma possível volta adiantada para casa. Quando eu perguntava para eles, naquele dia mesmo, se eles gostavam do trabalho, eles me respondiam "You get used to it" ("Você se acostuma com isso"), isto é, o trabalho é ruim, mesmo. Pra piorar, enquanto eu esvaziava uma lixeira cheia até a boca, uma americana me fala "You don't have a pretty good job, huh?" ("Você não tem um trabalho muito bom, né?").
Os nossos instrumentos de trabalho também deixam nossa vida pior. O conteúdo de todas as lixeiras é levado para o Avac, um ultraaspirador de lixo. Tem vários espalhados pelo parque, cada um em uma sala. A sala tem um cheiro podre, com o qual eu achei que nunca fosse me acostumar. Dentro do Avac, então, o cheiro é muito mais concentrado. A gente vira o lixo lá dentro, torce pra não entupir, e lava a lixeira com um jato d'água. Na primeira vez que eu fui fazer isso, eu não sabia que era um jato, então fiquei com a cara na região acima da lixeira (pra ver se a sujeira saía). A água bateu nas paredes da lixeira, virou uma nuvem e veio na minha cara. Fiquei lá alguns segundos com a mangueira na mão, boca e olhos fechados, processando a meleca que tinha voado na minha cara. Depois de fazer isso, a água é jogada numa peneira, e essa água espirra em tudo. Meu roomate tem um par de tênis igual ao meu, e eu diferencio um do outro pela sujeira (o meu tem espirro de gordura). Um brasileiro falou que, depois de despejar o lixo no Avac, por alguns minutos ele anda pelo parque sem falar nada, porque se ele abrir a boca, vomita.
Vômito: já limpei dois. O primeiro era gigante, tipo almoço e janta. Aqui tem um produto, o Voban, que seca o bicho, aí é so varrer. Pelo menos foi isso que me disseram, porque deixei agir o tempo necessário e, na hora de varrer, embaixo ainda estava tudo melecado. Varri o que deu pra varrer, deixei daquele jeito mesmo, fui embora.
No treinamento, limpar banheiro parecia ser um presente dos managers (chefes) para nós. Limpei banheiro uma vez. Realmente não tem muita coisa pra fazer, só manter tudo limpo. O problema é depois que o parque fecha, que precisa dar uma geral, inclusive nos mictórios e privadas. Como nós usamos luvas, não é tão nojento, tirando a hora de limpar as privadas. Americano não gosta de gastar energia, só de comer. Por isso, nos banheiros tem sensor em tudo, inclusive na descarga, para que eles não apertem um botão sequer. Quando eu fui limpar o assento da privada, a droga da descarga disparou comigo agachado na frente dela limpando, e isso aconteceu várias vezes. As últimas eu já limpava em posição de largada de corrida: disparou pisquei dali. Uma brasileira em treinamento deu muito mais azar: de cara precisou limpar um número dois do CHÃO, e mais recentemente outra teve de limpar uma cabine que, segundo ela, tinha aquilo até na parede, em estado líquido.
Os custodials dos anos anteriores dizem que a interação com os guests é um dos melhores aspectos de ser custodial. Depende. Aqui é moda trocar pins (ou, em bom português, BROCHE). Cada um custa um olho da cara pelo que é. Os custodials devem andar com uma lanyard (um colar que é uma espécie de faixa) no pescoço com pelo menos 12 BROCHES. As pessoas vêm e trocam os BROCHES delas com o custodial. É bonitinho quando vem uma criancinha e fala "May I see your pins?" ("Posso ver seus BROCHES?"). Só que logo depois aparecem os pais da criança. Eles são as criaturas mais interesseiras do parque. Eu não vejo graça nenhuma em andar com um colar de BROCHES, mas tem gente que anda com vários, faz coleção, gasta muito dinheiro com essa idiotice. Como nós não podemos recusar uma troca, os pais acabam trocando no lugar da criança, sempre pelo BROCHE mais caro ou maior que eu tiver, e o filho que se f*da se ele quiser um BROCHEZINHO do Nemo ou da Sininho.
O que os custodials dos anos anteriores tinham na cabeça pra falar que esse trabalho é bom? OK, tem alguns pontos positivos. Esse é o único trabalho no qual anda-se pelo parque todo. Nós somos livres, desde que deixemos tudo limpo, e dependendo do lugar isso é fácil. Algumas vezes precisamos ficar com um Nextel para que o nosso chefe nos localize. Se algum amigo também está com Nextel, dá pra ficar batendo papo, e em português pouca gente entende. Minha área é a pior de todas para trabalhar, mas eu vejo todo dia o Wishes, um show de fogos de artifício que acontece atrás do castelo da Cinderela. É muito bonito e emociona muito, porque tem uma história sincronizada com os fogos. Eu vejo também o da festa especial que as pessoas pagam mais caro para entrar. Além disso tudo, eu gosto muito de andar, e meu trabalho exige que eu ande 6, 8 horas por dia pelas ruas do parque, que são muito bonitas.
A experiência mais intensa pela qual eu passei aqui foi uma união do lado bom de ser custodial com a do lado péssimo de trabalhar onde eu estou. Toda noite tem parada (a SpectroMagic) e nós vamos atrás dela com aspirador de pó e vassouras limpando tudo. Parece que nesse dia tinha gente importante no parque, e a coordenadora da parada queria mostrar que sabia fazer o serviço então fez muita pressão. Tinha chefe pra todo lado, fazendo pressão para que tudo estivesse limpo. Porém, tinha TANTA GENTE no parque que nós não conseguíamos espaço para varrer (e dizem que isso é só o começo). Não foi culpa nossa, mas eu fiquei muito, muito mal. Tivemos um break e, quando já estava acabando e eu estava voltando para a minha posição, começou o Wishes. Uma mulher me parou e perguntou se eu podia achar alguém que quisesse o balão dela. Esse balão custa uns 10 dólares. É de gás hélio, transparente e tem um balão de Mickey dentro. Eu fiquei com o balão, feliz que nem criança, e quis levá-lo comigo para limpar, mas não podia. Eu vi uma menina no colo do pai dela, ele vendo o Wishes e ela olhando para trás, segurando no pescoço dele. Eu cheguei com o balão e falei "It's for you!", e ela "Thank yooou!". Como estava todo mundo vendo o Wishes, ninguém viu a cena. Fui embora e fiquei olhando de longe. Ela ficou muito feliz. Ela mostrava o balão pro pai dela e apontava pra onde eu tinha ido. Depois ela mostrou pra família inteira dela e apontava pra onde eu tinha ido, mas não dava pra me ver por causa da multidão. Uma hora ela me achou e eu dei um tchauzinho pra ela, e ela me deu outro. Aquela pressão toda pra deixar tudo limpo, o "thank you", o tchauzinho, e ainda pra piorar o Wishes acontecendo na minha frente... dá um pouco e vergonha de escrever isso na Internet pra qualquer um ler, mas eu fiquei engolindo choro por um bom tempo. Aquilo fez valer todo o trabalho sujo.
Como os veteranos disseram, eu me acostumei com aquilo. Viro o lixo e não ligo se tem fralda suja, sanduíche meio comido, nem sinto mais o cheiro da sala do Avac. Eu não tenho nojo de mais nada e aprendi a limpar. Profissionalmente falando, esse trabalho não me servirá, mas pessoalmente, até agora, foi o que mais me fez crescer. Eu não recomendo esse trabalho para os próximos cast members, mas recomendo que todo mundo valorize o aparentemente reles faxineiro que nós sempre vemos por aí... e nem olhamos na cara.

27 novembro 2008

Posts descritivos.

Há muito tempo eu queria postar sobre aquiiilo, mas o acesso a computadores tem sido bem difícil e sequer uma caneta eu tinha para escrever um post. Agora eu tenho, então bora.
Quase que eu não vim. Fiz a entrevista no consulado para obter o visto num dia em que tentaram fraudar documentos, então passaram todos os entrevistados do dia num pente fino. Eu creio que isso tenha acontecido para enrolarem tanto para entregar meu passaporte. Mesmo. Eu estava com ele na mão faltando pouco mais de uma hora pra terminar o check-in para o vôo. Peguei carona com pessoas que também estavam correndo atrás de passaporte, na central dos Correios, na casa do cac*te, para o aeroporto. Nem voltei pra casa pra tomar banho, fiz minhas malas pelo telefone, entrei correndo literalmente no aeroporto, fiz check-in, abraço na família, tchau, embarque. O vôo durava 9h30 e eu não sabia porque tem uma diferença de 3 horas entre a região na qual eu estou e o horário de Brasília. "Peguei emprestado" um Dramin com uma mina pra "curtir" o vôo. Fiquei as 9h30 sentado, dormindo ou entrando na vibe dos americanos.
Quando chegamos em Atlanta (de modo turbulento), saí do avião e putz, estava mais frio do que eu já tinha sentido antes. O blazer que eu estava vestindo congelou inteiro por dentro. Pelo menos dentro do aeroporto era aquecido. E que aeroporto. Ele é tão grande que TEM UMA LINHA DE METRÔ DENTRO DELE, tipo, só pra ele. EU PEGUEI METRÔ pra ir de onde eu desembarquei pra onde eu faria conexão. E aquele lugar era tão... norte-americano. Guardinhas negões falando inglês, pessoas passando por mim falando inglês, TVs ligadas em canais em inglês, um time de basquete passou por nós, etc. Aquelas máquinas que no Brasil vendem barra de chocolate (ou que vendem livro, no metrô) vendiam fones de ouvido de 450 dólares e iPods. Enfim, outro mundo.
No avião para Orlando eu não estava drogado, então eu fiquei com mais medo. Na decolagem o avião ia pros lados. Aliás, ele estava cheio de pessoas que eram o estereótipo dos norte-americanos. Pelo menos metade deles estava com um BlackBerry. Um estava lendo um livro chamado "Built To Win". A aeromoça tinha cara de megera norte-americana. Todos eles pareciam o Al Gore ou a Martha Stewart. Infelizmente, nesse vôo foi que eu tive a sacação de que eu estava sozinho num país e que eu ficaria mais de 2 meses nele, e também foi aí que eu me senti a pessoa mais sozinha do mundo, achei que tinha dado um passo maior que a perna e que não ia conseguir. Pior ainda, essa sensação aumentou durante o dia.
O avião pousou com um tranco tão forte que um daqueles lugares acima da cabeça de guardar mala de mão escancarou-se. Fomos recebidos pela Disney e levados para o condomínio, e esse foi um dos momentos de choque cultural. A janela do ônibus parecia uma tela de cinema, não um vidro, porque tudo era MUITO norte-americano. Os carros, as rodovias, as placas em inglês, o rádio do ônibus, as pessoas. Mais tarde, quando fui eu e um roomate pro Wal-Mart, o choque foi maior ainda. O conteúdo das prateleiras é tão diferente, assim como os preços. Pelos corredores vão norte-americanos obesos mórbidos em carrinhos elétricos, muito mais hispânicos do que eu imaginava, e muito mais brasileiros, também, isso sem contar os da Disney. Tem muita, muita tranqueira à venda, e da boa. Eu comprei um pacote gigante de nachos e quase um quilo de molho de tomate com pedaços de outras coisas. Comprei aqui meu primeiro Haagen-Dazs, quase meio litro por 3 dólares. Um creme de barbear que no Brasil é 20 conto paguei US$ 2,50. Comprei outro dia 12 donuts por 4 dólares e dividi a conta com um cara do condomínio. 24 latas de Coca-Cola, 5 dólares. Em compensação, paguei 68 cents numa cebola, mais de um dólar numa alface, 5 dólares num adaptador de tomada, quase 7 dólares num Big Mac. Esse Big mac, em compensação, era num McDonald's open bar de refri, de café, de ketchup, mustard, hot mustard, barbecue e s+s, um molho meio doce. No meu último dia aqui eu vou pro Mc com uma garrafa de 2 litros pra encher de molho barbecue, porque é MUITO gostoso.
Voltando para o primeiro dia, chegamos no condomínio com a chave do nosso quarto na mão. Cheguei no meu quarto e já tinha dois roomates, os dois gente boa, brasileiros e paulistanos. Teve gente que caiu com 5 chineses ou 2 colombianos e outras combinações. Esse intercâmbio cultural é até legal, mas traz inconvenientes tão... inconvenientes que faz perder a graça, como uma mina que mora com chinesas porcas que deixam a cozinha fedendo depois de fazer as comidas tradicionais delas, o cara que caiu com 2 mexicanos que comem no McDonald's e deixam o pacote das coisas lá jogado no chão, etc. Aliás, todas as pessoas que eu conheci até agora e com quem eu fiz amizade são brasileiras. Encontrar brasileiro é tão legal =]! Andando na rua, quando dois brasileiros se ouvem conversando, na hora já puxa assunto um com o outro, e nos parques também. Todo mundo que trabalha na Disney tem uma nametag, um troço que vai no peito com o nosso nome e de onde nós somos, aí os brasileiros já vem superfelizes conversar com a gente.
Voltando pros roomates, o que chegou por último ficou menos de uma semana no quarto, mudou-se, entrou no lugar dele um que é primo de um que já estava aqui. Todos os meus roomates são limpos e organizados, grazadeus, porque a Disney passa uma inspeção agendada e outra aleatória nos quartos e se estiver sujo tem multa. Ontem eu derrubei bolo no carpete e fiquei morto de medo de sujar e nunca mais sair a mancha. O que eu fiz foi espalhar a mancha de modo que ela desaparecesse no carpete, e ficou perfeito!
Esse bolo, inclusive, foi o roomate primo do primeiro que fez de dia de Ação de Graças. By the way, nossa alimentação é um lixo. Meu pai pôs uns 30 Miojos na minha mala e isso me poupou de comer o lixo supremo que todos comem aqui, uma comida congelada chamada Michelinas. Dá desgosto de ver, mas é a coisa mais barata aqui, perto de 1 dólar. Tenho vivido de salada com muito, muito molho, Miojo, pão de fôrma com manteiga "roubada" do avião ou de qualquer lugar que seja "open" de sachê (quando vamos pra esses lugares enchemos o bolso de sachê de sal, açúcar, etc., pra não precisar gastar com isso) e de Centrum genérico (chama Equate). Comprei 300 cápsulas por 8 dólares, e por muitos dias isso foi meu café da manhã.
Falar em café da manhã me lembra dos meus horários insanos de trabalho, mas pra não esgotar o assunto, do trabalho eu falo no próximo post. Eu espero que toda essa narração da viagem seja não só divertido pra quando eu ler no futuro, mas útil pra quem quer ser cast member ou pra quem quer viajar pro exterior.
Hope you enjoy it. I miss everybody from Brazil, every little person.

Sincerely yours,
Arthur!

20 outubro 2008

Num sábado chuvoso, acordei às 5h30 e fui trabalhar, eu e mais dois amigos. Quando saímos do trabalho ainda estava chovendo. Um morava pela região e outro queria ir pra galeria do rock. Fomos descendo a frei caneca a pé embaixo dos nossos guarda-chuvas e continuamos descendo pela augusta. Já perto da república, destino dos dois, a chuva ficou muito forte. Atravessamos a rua e entramos num posto de gasolina. Um deles comprou uma Coca-Cola para dividirmos. Sentamos na porta da loja de conveniência jogando conversa fora, esperando a chuva passar.
Ela não passou; saímos embaixo dela mesmo assim. Os dois foram pro mesmo lado e eu fui pegar ônibus. Estava sem nenhum livro na mala de propósito para fazer nada no caminho até a minha casa. Fiquei olhando a cidade passar pela janela, prestando atenção em tudo e ao mesmo tempo em nada.

Isso foi uma das melhores coisas que eu fiz em anos e, muito honestamente, eu não sei por quê. Tem gente (eu mesmo) que gasta um monte atrás de diversão, prazer, etc., e eu encontrei algo melhor que tudo andando embaixo de chuva e jogando conversa fora num posto de gasolina. Vai entender.